A temporalidade que fugiu do âmbito das minhas relações com o mundo externo – com essa vida que não para, com essas pessoas que não permanecem: eu sucumbi a ela. Depois de anos lamentando a fragilidade da vida e a minha impotência perante a maré do acaso:
02:44 da madrugada & a maré me levou até uma nova praia.
Foram anos de tormenta. Furacões & tempestades assolaram até os meus supostos instantes de calmaria. Duvidei que um dia o inferno fosse morar em outras estâncias – duvidei até de Sartre: o inferno era eu.
Foram
anos
glaciais.
s.f. Caráter do que existe no tempo.
Qualidade do que é provisório; interinidade.
Então aconteceu. O inferno, a tormenta, os furacões & as tempestades começaram a se dissipar. E então aconteceu. Você aconteceu. Tive tanto medo. Medo? Sim, medo. Medo de ser feliz. Medo de não suportar ser amada por alguém cujas intenções eram simples e caras: me fazer feliz. Fugia dos teus abraços no meio da noite. Fugia do sentimento que começava a nascer em mim. O amor. O verdadeiro amor. Um sentimento tão estranho. Tão desconhecido. Não. Eu nunca havia amado antes e hoje vejo isso claramente – as cortinas nunca mais voltaram a se fechar. Posso escolher milhares de adjetivos para tentar classificar aquela outra coisa, aquela coisa feia a qual me prendi por tanto tempo. Mas não. Os mortos pertencem a um mundo que não tem mais espaço no presente. Que fiquem lá – apodrecendo.
Luto agora com o medo que começa a aparecer de novo. Medo de mostrar-me inteira. Medo de me fazer vulnerável.
Viver apesar do medo. Mostrar-me inteira apesar das feridas do passado. Isso é amor? Acho que sim. E de todas as pessoas que já passaram por mim, de todas as vidas que já se encontraram com a minha:
você é o único que me faz querer sentir o medo e viver apesar dele.
Obrigada por me trazer de volta. Obrigada por salvar-me quando todos já haviam me dado por perdida. Obrigada por me fazer feliz de uma maneira que achei por tanto tempo ser impossível. Obrigada por continuar me abraçando a noite mesmo quando o meu corpo fugia do seu.
Obrigada por me ensinar
o que é
o amor.