Eu, atenta ao tempo que passa vagarosamente pela janela, escorrego para o canto da cama onde as formas do seu corpo me abraçam na sua ausência. Os domingos sempre me roubaram a capacidade d’enxergar o céu.
(E se a vida não fosse tão impermeável, molharia esse domingo com as lágrimas de outros tantos iguais e nos seu braços descansaria, finalmente, dessa exaustiva luta contra as lembranças de outras estações).
E sobre esse medo que carrego e pelo qual também sou carregada? Minhas feridas recusam-se a sucumbir a docura dos seus olhos: chocolate.
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Se da flor restou agora apenas a água suja do vaso. A grande animalidade de nós dois. Apodrecidos e secos. É na morte que se justifica a vida. Da vida tanta e tamanha que nos escapou pelos dedos. Era a água, não vês? A água suja do vaso de quando acreditávamos que tudo isso tinha algum valor. Humor cruel das manhãs que iam e vinham como se zombassem das cortinas. Os dias fustigando-me com horas intermináveis de vazio. Tento segurar a água-lembrança, mas meus dedos são lentos demais. Quando de ti meu corpo não sabia as horas doiam menos; e a vida doia mais. São esses espaços no meu corpo que ainda guardam pedaços de ti. Se acho um nó em meus cabelos sei que em em mim tu tens moradia. Porque da vida é tão fácil falar. E o amor não tem nada de vida – o mais perto que podemos chegar do abismo:
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(…)
(E a respiração de meu amante jamais soou tão apocalíptica quanto agora. Ao menos a madrugada ainda começa e: 1:48h. Talvez ainda haja salvação.)
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Chovia quando alguém me disse que eu um dia deixaria de me enxergar nessas linhas. Era setembro e a felicidade não estava nos meus planos:
“I beg you to save me from this madness that eats me
a sub-intentional death.
I thought that I should never speak again
but now I know that there is something blacker than desire
perhaps it will save me
perhaps it will kill me.”
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‘Nunca consegui encontrar o campo de travagem da tristeza. Morri muito para não morrer. Na tristeza encontro ainda o bafo reconfortante da vida. Já não sei o que é ter frio, nem calor, nem dor – mas permaneço triste, por isso existo. Preciso trabalhar as tintas das minhas mortais tristezas para atingir uma melancolia abstracta. Preciso que essa abstracção te preencha os poros – preciso te habitar, te moldar, barroco coração cubista. A tristeza impede-me de acabar de morrer – toma, dou-ta, ajusta ao teu sangue o pudor impudico do que fui. Que te lembres dos meus contornos claros, não chega – toma o lixo infantil que não te dei, as lágrimas manchadas pela dedadas do meu coração de chocolate. Come-as, deixa-me morrer dentro de ti – deixa-me escolher morrer dentro de ti, porque só essa morte me falta.’
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É uma pequena coleção de pedaços. Do quê? É uma pequena coleção do que me fez em pedaços. Em que? São objetos que esqueceram aqui. Cinco isqueiros, dois livros e um caderno. Já não me lembro mais das pessoas, elas se foram há tanto tempo. O que restou foi o esquecimento. Somos o que deixamos para trás. É isso? Não, é pior: somos quem esquecemos.
(…)
-Mas diga-me, afinal, já nos vimos antes?
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Já que hoje achei esse filme no fundo da gaveta:
Are you desirable? Are you irresistable? Maybe if you drank bourbon with me, it would help. Maybe if you kissed me and I could taste the sting in your mouth it would help. If you drank bourbon with me naked. If you smelled of bourbon as you fucked me, it would help. It would increase my esteem for you. If you poured bourbon onto your naked body and said to me “drink this”. If you spread your legs and you had bourbon dripping from your breasts and your pussy and said “drink here” then I could fall in love with you. Because then I would have a purpose. To clean you up and that, that would prove that I’m worth something. I’d lick you clean so that you could go away and fuck someone else.
(Leaving Las Vegas)
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