Quando éramos um, nós que sempre fomos tantos

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Por que você? Por que você? Fico perguntando para o vento, para as noites insones, para o cansaço. Seria diferente se não fosse você? Seria fundamentalmente diferente se fosse o homem que caminha com o cachorro na rua, o vizinho que fuma na janela ou algum daqueles bombeiros que cortam árvores no terreno baldio? Eu ainda assim teria me apaixonado, engravidado, parido e sido deixada sozinha com um bebê lindo? Os acontecimentos teriam sido outros ou só os detalhes? O bebê poderia ser uma menina de olhos puxados e pele mais escura, o parto poderia ter sido em casa, eu poderia ter conseguido amamentar. Se não fosse você, se fosse outro, qualquer outro, eu seria feliz?

Eu seria feliz se você não fosse você?

O que me fez me apaixonar? O que faz qualquer pessoa se apaixonar? Schopenhauer entende o amor como um mecanismo de perpetuação da espécie. Justificamos o sexo com o amor e amando nos multiplicamos e transformamos o planeta nesse aglomerado de pessoas sem rosto. O amor seria então a grande mentira da nossa humanidade. Eu te amei e tive o nosso filho. A única existência uníssona possível. Quando eu era adolescente e acreditava em grandes histórias de amor essa confusão entre um ser e outro me fascinava, eu esperava pelo dia em que o meu corpo continuaria em outro como um pássaro que após semanas de voo chega a um lugar quente e pode descansar.

Chovia muito no dia em que decidi fazer um teste de gravidez. Nós não éramos mais um casal, mas apesar disso você continuava sendo umas das pessoas mais presentes na minha vida. Dois traços rosados perpendiculares um ao outro em um bastão de não mais do que dez centímetros. Positivo. Um bebê crescia dentro de mim. O meu bebê com o homem que eu amava. O meu bebê com o homem que não me amava.

Não lembro onde li um texto que falava sobre o poder que temos de transformar a nossa realidade a partir dos nossos medos. O autor, sei que era um homem porque só um homem seria tão maniqueísta ao atribuir culpas, falava que a medida que temíamos algo criávamos esse medo na nossa psique e depois na nossa vida física. Ou algo assim. Quando li imaginei uma baleia, morro de medo de baleias, se materializando na minha frente e dizendo que não me ama. Ri sozinha e esqueci o texto até aquele momento em que os dois traços rosados determinaram o meu futuro.

De vez em quando, enquanto escrevo, sento-me mais reta, coloco os ombros para trás e dou três voltas para cada lado com o pescoço. Na rua um casal desperta minha atenção. Não sei se são um casal. Um homem alto, usando calça jeans e um casaco pesado demais para o clima de hoje e uma mulher com um vestido que vai até o meio de suas canelas. Eles andam sem se olhar ou se tocar. Às vezes a mulher ensaia o movimento de tocar na mão do homem, mas não toca. Ela faz isso três vezes sem que o homem note e então para. Eles me lembram nós dois. Eu sempre quis te tocar. Desde o dia em que você me disse, estávamos deitados nus na cama, que eu não era a mulher da sua vida. Desde aquele momento tudo o que eu queria na minha vida era te tocar. Eu te tocava fisicamente, mas não era isso. Eu te tocava nos momentos em que minhas mãos não ousavam encostar em você, quando andando juntos na rua eu ensaiava um encontro que nunca acontecia. Eu te amava quando parava minhas mãos no ar e esperava pelo encontro com as suas.

Nós nunca nos encontramos. 

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O amor foi vendido, relato do meu parto e puerpério.

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Acordei assustada. De repente. Levei a mão até o lençol, pisquei os olhos. “Acorda que minha bolsa estourou.”
“Começou.”, pensei ao me olhar no espelho e ver que tudo já tinha mudado, há meses, para sempre.
O primeiro ultrasom, eu sozinha. “Não precisa ir, não dá para ver nada, pode dormir.” Seis meses. Seis meses e meio. “O rosto está aqui, é menino.” Conhecer o amor da sua vida fará seu coração parar por um segundo, um dia alguém me disse. Era verdade.
Gerar uma vida. O poder do meu corpo de gerar uma vida silenciosamente enquanto eu ia às aulas, fazia compras, chorava uma tristeza inexplicável. Enquanto eu lia sobre teorias de aquisição da linguagem em mim um ser novo se formava para um dia falar, ler e amar. A vida não me pediu licença, a vida aconteceu.
“Parto normal, é claro.” Começaram as consultas do pré natal. Comecei a me deslocar do local social que sempre ocupei. Eu era mãe. Eu decidia por mim e por ele. Eu decidia? 
Entrei no mundo da obstetrícia brasileira. A cultura do medo da ‘pior dor do mundo’. As mentiras. ” Com 36 semanas vamos agendar a cesária se ele não virar. Já aviso que é muito difícil que ele vire, tá grande demais.” Sempre fui teimosa, do contra, chata mesmo. Conheci uma mãe mais chata ainda. “Tá louca? Foge dessa cesarista! Parir não dói assim não.” Fugi, com 34 semanas fui atrás de um médico que me respeitasse como uma mulher parindo seu filho. Superei preconceitos. Parir sim. Como bicho. Como fêmea. O poder do feminino de fazer a vida chegar nesse mundo do jeito que a natureza sempre quis. ” Que bom que você quer parto normal, não preciso te convencer.” “Ufa, amiga, achei meu médico.”
Roupas de bebê, chá de bebê, quarto do bebê. Vez ou outra um olhar de espanto ao dizer que faria parto normal. “Que coragem!” Não, é informação. Muita informação. Tanta que um dia minha mãe me disse que eu não falava de outra coisa. E não falava mesmo. Tem coisa mais incrível do que conhecer a força do seu corpo? A perfeição desse processo fisiológico que traria ao meus braços aquele que já chutava e se virava na minha barriga. 
Virou! Virou! Está encaixado. O tempo que não passava. Será que vai ser hoje? E hoje? O dia que ele escolher para vir ao mundo. A nossa hora, a hora em que nasceremos.
Foi no dia três de novembro. Já em trabalho de parto, com contrações ritmadas, fomos almoçar. “Não tá doendo tanto, não vai ser hoje”. Chegamos ao hospital. A não-dor foi sumindo e a dor chegando. Dancei, caminhei, fiquei horas embaixo da água quente. Assistimos um programa de culinária, comi um sanduíche. Às sete horas cheguei ao meu limite e pedi analgesia. De baixa dosagem, alívio. As contrações vinham a cada um minuto e meio. Às nove e meia a analgesia passou. ” Já está coroando, cheio de cabelo. Quando sentir que deve, faz força.” Doía. É claro que doía. Uma dor incrível. Gritos libertadores. “Me ajuda, me ajuda, me ajuda.” Mas ninguém nos ajudaria, nós não precisávamos de ajuda. Juntos, às nove e quarenta e cinco, chegamos ao mundo. Cheguei ao outro lado de tanta insegurança, medo e dúvida. Eu pari. A vida passou pelo meu corpo, só existíamos nós dois no mundo naquele momento. Direto para o meu peito, nos olhamos. Nos (re)conhecemos.Nunca chorar foi tão alegre e incontrolável. Foi tudo por ele. Foi tudo para ele chegar no mundo com paz, no momento certo e vir para o meu colo. Para que o cordão que por nove meses o nutriu só fosse cortado quando parasse de pulsar. Para que o banho fosse dado dias depois, só quando todo o vérnix tivesse sido absorvido. Para que a vida dele começasse com o menor risco possível, com o maior amor possível.
Sou mãe há quase dois meses. Logo quando Yuri chegou um amigo me disse sobre uma frase que tinha lido: “Quer fazer um ato político? Eduque um filho”. Digo mais: parir é, também, um ato político. O sistema tem que ser combatido. A mulher é a protagonista do parto. Não o médico, nunca o médico. A cesariana é incrível e, quando necessária, salva vidas. Mas vivemos em um país onde 80% dos partos da rede particular são cesarianas. 80% quando a Organização Mundial da Saúde recomenda que no máximo 15% o sejam. O sistema vigente mata mães e bebês. O sistema impele mulheres a fugirem do parto que, respeitoso e humanizado, foi o momento mais poderoso e lindo da minha vida. 
Ser mãe me impede de fechar os olhos para tanto dinheirismo, machismo e preconceitos em geral. Esse mundo é do meu Yuri agora e nele não pode existir lugar para o ponto de contato de tudo isso: o ódio. Nele não existe lugar para negar o que parir me ensinou:
ser mulher é político.

***

Segunda-feira. São quase seis e meia da noite, a hora em que consigo sentar no sofá e ligar o computador. Um olho na tela e outro no Yuri que cochila. A minha frente, meus livros. Preciso ler aquele que comprei dois dias antes de pegar o resultado positivo, talvez hoje à noite eu leia antes de dormir. Mas a casa, o jantar, a louça, o banho, o sono.
Tenho estado muito triste. O meu puerpério foi feito de lama. Baby blues? Baby escuridão, baby abismo. Ninguém fala sobre isso. Ou talvez falem, mas têm coisas mais importantes o enxoval, o parto, o nome, o nome, qual vai ser o nome? Tive pouco mais de três meses para percorrer um caminho que nunca imaginei que fosse percorrer. Não naquele momento, não daquele jeito, quem sabe um dia, depois dos trinta, depois do mestrado, depois do doutorado, depois de aprender a viver, depois de descobrir quem eu sou.
Eu não nasci para ser mãe. Não penso que alguma mulher nasça com essa predestinação suprema, mas existem aquelas que encontram nisso sua motivação de continuidade, que se preparam, que amam a ideia antes dos fatos, antes da carne. Nunca fui assim.
Os pouco mais de três meses passaram, o parto – e que parto poderoso! – passou e então éramos nós dois: Yuri e eu.
Um bebê de quase quatro quilos que olhava para mim com olhos de quem nunca viu. Eu era mãe. Não, eu não era. Não ainda. Mas o mundo não reconhece construções. As pessoas não enxergam os processos necessários para se chegar a um resultado. Eu não enxerguei nada disso. Como parte desse mundo eu sabia que tinha que ser fácil, que o maior amor de todos, a devoção incondicional tinha que surgir instantaneamente e me transformar inteira. O mundo e eu estávamos completamente enganados.
Por nove meses eu o nutri e de repente eu não conseguia mais. Amamentar foi a tarefa mais difícil de toda a minha vida, e eu falhei. Yuri no meu colo, lindo, perfeito, no meu peito tentando sugar o que eu tinha para lhe oferecer. Eu tinha leite, mas amamentar não é leite. Eu tinha amor, mas maternar não é o amor que eu conhecia até aquele momento. O amor que eu conhecia e que naquele instante era só o que eu podia oferecer.
E eu? E o que eu sinto? – perguntei. Não importa para ninguém o que você sente. – responderam.
O tempo foi passando. Mamadeiras, fórmula, o maior sentimento de culpa que alguém pode sentir. Ser mãe é sentir culpa, eu li em algum lugar, e até pouco tempo atrás culpa foi tudo o que eu consegui sentir.
Como dividir o meu espaço emocional com outro ser? Dividir o corpo é fácil, é natural, é físico. Como abrir mão de todos os planos e observar em silêncio o meu filho dormir? Como aceitar o fim da minha mortalidade?, meu filho que dorme não me deixará jamais ter fim.
Yuri tem quase três meses. Há poucos dias assumi para mim mesma que eu preciso aprender a ser mãe, que um amor assim não vem fácil. Nunca quis que fosse fácil. Nunca quis cesária, chupeta, remédios, independência precoce. Mesmo antes de ser mãe, mesmo quando eu não sabia de nada, eu sabia que queria viver isso da maneira mais intensa possível e criar uma pessoa que será feliz e livre. Livre. Quando aprendi que ser mãe é também esse medo de não saber ser, essa imersão em tudo que já vivi, esse encontro comigo mesma e deixar para trás o que não nos servirá mais.
Tornei-me mãe quando entendi que mãe a gente se torna e que não existe transformação sem perda, sem luto, sem dor.
Estou aprendendo e não há culpa nisso.
Agora eu sou mãe, agora eu sou livre.

12.

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A pequena janela encravada na parede branca era a morte do mundo.

A luz crepuscular entrava no quarto e a cama era iluminada como só seria possível em um quadro de E. Hopper. A luz era física. Tão física quanto a marca de um corpo ausente no colchão.

Para além da janela, existia o mundo. A ladeira acabava em uma curva para a direita. Acabava, entretanto, e continuava em outros pontos de vista impossíveis para a pequena janela que, fadada, sucumbia as suas limitações empíricas. Sobrados se erguiam quietos ao redor da ladeira e nada se movia além das folhas das árvores que escondiam em parte as casas de uma rua mais alta, uma rua impossível.

Janelas não foram feitas para observar obviedades, ele disse. A árvore solitária circundada por um triângulo de cimento e o ninho de barro construído no topo de um poste de luz, são eles que merecem ser descritos. As pequenezas não observadas são o respirar das coisas, ele me disse mesmo que a sua voz eu não tenha ouvido há mais de um mês.

Um quarto com uma janela e nenhuma porta. Um quarto com uma janela e nenhuma porta e a cama e os suspiros e todas as coisas do mundo. A saudade destruiu a porta, eu diria se tivesse voz. A saudade estabeleceu meu lugar perto da janela observando o mundo e o respirar das pequenas coisas enquanto aos meus pés os gatos pedem por carinho. Foi a saudade que me fez observar o ninho e esperar pela volta do joão-de-barro.

É uma espera geral, eu diria enquanto tento fazer algo com minhas mãos. O mundo inteiro está em suspenso. Caminho na ponta dos pés tentando não acordá-lo. Não sou eu quem tem o poder de despertar as coisas. Você sabe, eu sou algo do mundo e respiro em minha pequenez suspensa.

A pequena janela encravada na parede branca é a espera pelo pássaro que não volta.

2.

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De qualquer maneira. De todas as maneiras possíveis. O futuro como um pássaro ferido que respira. Não existe nada mais forte do que estas sensações inexplicáveis. Palavras demais, eu sei. Palavras demais quando não existe língua para axiomas. Talvez se eu tivesse prestado mais atenção às aulas de matemática eu pudesse explicar melhor.

Só sobrou o silêncio. Só sobrou o tempo. Só sobraram todas as coisas do mundo.

Labrys.

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O caminho por entre as árvores sempre foi um labirinto. O frio e a neblina. O frio. Entre todas as mãos são as suas que afastam os galhos do meu rosto. O ar quente não pode ser a sua respiração. Os pinheiros sibilam. Ainda hoje, os pinheiros sibilam. Eu sempre choro quando passo por essa entrada à direita, mas meus olhos não podem saber da rotina quando meu coração avança quieto. Você já esteve aqui antes? A saída está no centro.

As farpas nas suas mãos são salgadas e meus lábios quentes fazem seu corpo tremer. Sem você eu já teria perdido meu único olho. Apenas ciclopes se apaixonam.

As sebes só deixam a luz do sol entrar quando chegamos ao centro. Não tem nada aqui, eu esperava algo magnífico. Seus braços entrelaçam meus ombros e eu esqueço de respirar quando me aninho no seu pescoço. A luz agora é forte demais, fechamos os dois únicos olhos.

Vês? Sim, é magnífico.

Fragmento.

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Talvez eu precise escrever sobre você,
quando você bateu na minha porta vestindo uma blusa manchada que me fez passar horas imaginando como podiam as marcas da chuva demorarem tanto para secar. Você estava seco, mas isto só percebi quando meu seios se comprimiam contra seu corpo magro. Você me odiou por meus cigarros e ficou há exatos quatro palmos de mim no sofá. À minha direita o tempo todo – como explicar que ter alguém à minha direita me deixa terrivelmente incomodada? -, assistíamos um programa sobre um menino portador de uma doença rara que se manifesta com a formação de um tumor enorme que toma conta de suas costas. Éramos você, eu e o menino tartaruga no primeiro dia do ano. Você não suporta ver sangue, esta foi a primeira coisa que aprendi a seu respeito. De todas as coisas que existem para serem conhecidas o primeiro fragmento da sua totalidade que consegui capturar foi este ao te observar desviando o olhar enquanto os cirurgiões de um hospital na Venezuela cuidadosamente extirpavam o tumor do menino.
A história do menino que deixou de ser tartaruga, do homem seco que não suporta ver sangue e da mulher que mentalmente conta distâncias no sofá.

Surdo e mudo.

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– A importância não está no que é dito, tampouco no modo com o qual você narra seus mundos. Eu te conheci plenamente quando a sua entonação, os seus gestos e os seus olhos se tornaram mais importantes do que suas frases rudes. Conhecer alguém é esmiuçar silêncios. Um constante exercício de topografia. No momento em que eu te escutei pude parar de ouvir suas palavras de vime.