Três correções da mesma palavra na mesma noite.

1.

Olha, Marie, a beleza entra as cortinas e a cegueira.
Olha, Marie, meus olhos secaram. Grudaram as pálbebras e tudo tornou-se o mesmo vazio do escuro e do silêncio.
Queria te escrever tanta coisa. Escrever-me inteira. Deixar a tua porta: morta de mim.
Sou, Marie, a eterna espera de você.
Posso mais te esperar. Você que nunca volta. Você que está tão longe. E apenas das palavras posso fazer nossa ponte. De mim até minha ilusão de você.
Está longe pela minha fraqueza. Minha velhice. Vai de dezenas, centenas, milhares.
O meu cansaço de tanto viver. Na minha vida póstuma.
Vida. Vida. Vida.
Que coisa é esse de fugir de ti?
Que ti?
Eu-ti.
Correr pelas ruas de pedras irregulares. Alcançar as estradas. Parar os carros. Despir as roupas.
ARRANCAR A PELE.
Ser nojo e grotesco.
Com sangue, vísceras. De órgãos e sentires.
E dentro do que sobrará de mim. Ver-se-a apenas você.
Minha mulher. Meu homem. Meu Senhor.
E um ínfimo daquilo que não conheço muito bem. Chamam:
Vida.

2.

É por isso que gasto tanta tinta. Por você, Marie. Vou escrevendo escrevendo escrevendo.
Minha voz agora sai tão fraca e não-humana. Coloca aquela antiga lendo os dizeres de hoje.
Não, Marie, não se canse tão fácil.
Tenho toda uma lisa de percepções que fui anotando enquanto esteve fora. Toda vida.
Percebe, Marie, que o mundo está todo errado? Ou sou eu? Diz a verdade, mas não diz que sou eu.
Serei eu tão louca assim, Marie? Não, não diz que não sou.
Só o que fiz foi te ter para sempre dentro de mim.
Mastiguei sangue órgãos ossos alma.
Te engoli inteira. Estás aqui.
Agora tu és a minha mais doce loucura.
Tu sabes da minha carne ferida, não sabes?
Como é estar no lado de dentro da carne rasgada? É seguro aí ou existem vermes tentando comer o teu redor?
Queria saber também disso. E além.
De onde estás pode ver minha perdição? Sabe? Aquele amontoado de dor, de angústia, de ausência.
Pode, Marie?
Diz a verdade, mas não diz que não pode.

3.
Rebecca

Desculpe se te fiz esperar. Estava no chão tentando juntar as palavras que deixei cair no susto de te saber vindo.
Por favor, não repare todos esse livros jogados. Estava procurando algo inteligente para citar quando você começasse a falar daquele jeito.
Eu entendo. Sabia que eu entendo?
Sei de todas as coisas. Aqui dentro.
Minha lógica nunca existiu. E minha razão se perdeu na minha busca por sentir.
Quer que eu te faça alguma coisa? Deve ter café por aqui.
Desculpe, não tenho chá. Odeio lembrar da calma da natureza.
Tenho meus calmantes. Meus remédios.
Você não gosta disso, né? Sabia que tinha que ter comprado chá.
Posso tocar teus cabelos? Posso cheirá-los? Posso mastigá-los? Só para sentir o que é a consistência de ser você.
Por que está tão perto da porta? Vai embora?
Não vá, por favor, tenho tanta coisa que quero te contar.
Ontem tive um sonho com
Não vá. Por favor. Não vá. Tenho tanta coisa boa para te dar.
Tanta coisa.

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Não quero mais ver que dentro está tudo podre.
Dez,
quinze,
vinte,
trinta,
quarenta ou
o suficiente para saber tudo o que posso saber sobre o sentir.
Passa um minuto, um dia, um ano e toda a minha vida encolhe e cabe dentro de uma caixa de mármore. Não um túmulo. Nunca um túmulo. Uma estátua dos dias bons que um dia foram.
Tanta dor, tanta dor, tanta dor.
Eu enxergo tudo aquilo. Enxergo tudo, como posso?
Tanta estranhez ao olhar o quê um dia é e hoje não sei se foi ou se apenas aspirou ser.
Estou tentando. Juro que estou tentando.
Fiz como você falou para fazer. Mas não sei porque, algo deu errado.
O ar que tentou entrar foi barrado pela falta daquilo que eles chamam de essência, ou vontade, ou Vida.
E a Vida olhou bem dentro dos meus olhos e ficou parada como se enxergasse dentro deles algo além.
Tentei fazer algo novo com o meu rosto, mas sempre fui imbecil ingênua transparente.
Fiquei esperando esperando esperando esperando.
Já percebeu que é a única coisa que eu faço? Um banco. Uma cama. Um chão. Uma parede.
E ninguém nunca chega. CARALHO, PORQUE NINGUÉM NUNCA CHEGA?
Porque eu sempre vou estar aqui. Não importa. Pode ser daqui há sete dias ou três anos. Eu vou estar.
Sempre a imbecil ingênua transparante e cheia da mais podre esperança de que um dia o sol vai nascer e minha pele não vai ficar toda vermelha e ardida.
Não vou mais esperar. Cansei de ficar aqui. Ou ali. Ou do outro lado da mesma parede de sempre.
Não é verdade.
Não é verdade. Pode ir, estarei aqui quando você voltar.