5.

Quis dar ar ao papel e as palavras;
meu hálito gelado finalmente chegou à sua razão-
dobrei o papel oito vezes.

Enfim,
é tudo seu.
Só guardarei;
colado ao meu peito;
o seu perdão.

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4.

Tum. Tum. Tum.

Eu sei que não é assim:
o barulho da chuva caindo.

Até parece coração batendo;
talvez seja-
coração batendo fora de mim.

(Os barulhos dizem tanto sobre alguém.)

Todas as linhas,
eu leio alto.
Interpreto, até faço
caras e gestos.

Pode rir,
cê tá certo:
eu perdi completamente;
o meu senso do ridículo.

Para que se vestir tão bem,
se vai ficar em casa?
Mas eu não estou-
usando calcinha.

Não me faz perder o ritmo;
eu tenho um ritmo:
só não é o mesmo que o seu.

Seria mais fácil;
eu sei-

não entende que é justamente isso,
que me faz diferente de você?

É,
isso também mudou.

Não quero mais ser você;
quero ser ninguém:
o lugar que está sendo guardado.

Ausência do outro.

Você me disse-
e eu,
eu não entendi direito.

Concordei com a cabeça:
você deveria saber o que isso
quer dizer.

Eu:
faço tudo errado;
falo tudo errado;
amo tão mal.

Você me aproxima de um mundo,
que de tanto querer:
eu perdi.

Só de olhar os teus olhos:
aqueles que planam nos meus sonhos;
eu consigo enxergar o lirismo,
e a arte,
e a estética da dor.

Tento me convencer,
de que nossos caminhos
vão se encontrar;
na próxima esquina.

Mas:
o círculo não tem cantos,
assim:
nenhum encontro.

As tentativas de embelezar
o lado esquerdo,
tornaram o direito opaco e;
você sabe:
meio ruim é ruim,
do mesmo jeito.

Eu sou em pedaços,
enquanto você:
é inteira.

Eu tive chances e errei,
em todas.
Você é uma única tentativa,
que deu tão certo

quando eu penso;
meus olhos salgam,
meu ar prende
e sou toda, toda:
amor.

Amor-eu.
Amor-você.

3.

Que apatia-
o barulho das
gotas caindo
pontuam minha noite.

O sangue não cai:
o sangue escorre.
Lento, tão lento;
Conforto, conforto.

São todos fenômenos
(naturais?)
Tudo segue a linha
torta de qualquer Deus.

Parei de questionar;
minha língua foi cortada-
agora o sangue cai.
Dói e dói e dói.

D.

“Entretanto, senti um calafrio quando ele me puxou para si. Não estava nem despida ainda quando seu sexo entrou em mim. Doeu. Com um único golpe, assim, ele me penetrou. Não fiz nenhum gesto, a dor subia direto ao coração, totalmente perplexa, era incapaz de qualquer movimento. Seus cabelos cheiravam bem, suas mechas balançavam sobre meu rosto, como se ele tivesse desdobrado e houvesse dois se agitando sobre mim, durou uma eternidade, sentia tanta dor que não conseguia sequer encontrar meu corpo.”

 

Hoje já não como mais. Digo: não como como antes. Faço não mais por prazer, por obrigação.
Mas gosto do cheiro. Prepararia qualquer coisa só para sentir o cheiro e me alimentar dele.
É vida. Não tem corpo. Não é fisico.
Sua existência depende de outro. Mas está ali e só deixará de estar quando o outro acabar.
Por isso que ‘mas gosto do cheiro’ diz tanto sobre mim.
Não é da vida que eu não gosto.
É de mim.