De novo, e de novo: nada novo.

Odeio minha solidão. Pego negativos de filmes- de pessoas- e tento ver através deles ver o eclipse da dor e da ausência. Essa luz tão forte que me cega, me atormenta, me faz fazer sem sentir e sentir tarde demais.
Não tem nenhuma relação com as pessoas em si. É um dos meus pedaços, talvez o único que continua inteiro depois de tudo o que já passou.
Se existem pessoas tão sozinhas quanto eu, se- na verdade – todos são assim; isso nada me importa.
Quero parar de alimentar essa luz, quero poder olhar para os olhos – mesmo que sejam os meus – sem ter minha atenção presa por um luminosidade absurda.
Minha força está na dor. E, mesmo assim, será que é força? Talvez seja um pouco de frieza. Eu sinto a dor mas, como todo o resto, sei que um dia vai passar. São dois dias de uma fisgada, outros dois de um corte, e mais outros dois que uma trombada com um desconhecido qualquer.
Não é apenas repetição, é a realidade que acreditei tanto ser minha que, lá no fundo, eu estou fazendo-a existir
.

Passo a passo.

Encontrarei, no fim dessa rua, algo para mim? Ao virar aquela esquina, aquela lá- bem longe, deparei-me com meu amor perdido? Acharei um frasco pequeno de uma cola da alma, e com ela conseguirei colar todos os meus pedaços- e tantos outros?
Ando só para andar. Os pés: direito, esquerdo, direito, esquerdo- podiam ser o início de um filme. Mas não são.
Ficar parada; assim, sentada, faz o monstro crescer. Quando ando meu cansaço e a falta de fôlego incomodam à mim e ao monstro- ou os dois sou eu?
Minha vida parada, mas estou andando. Ta tudo bem, ta tudo bem- repito e repito e repito.
Nada está bem e nunca estará, mas isso é tão maior do que eu. Preciso mentir baixinho para só eu poder ouvir. Os outros? Bem, os outros também estão mentindo. Alguns só para si, outro também para os outros e ainda outros que só encaram o mundo com fardo de mentiras. Serão esses últimos mais sinceros do que eu? Devem ser.
O mundo é uma mentira, e assim sendo, eu sou apenas uma metáfora que corrói de verdades uma inverdade absoluta.

Não quero falar sobre amor.

Sinto minha perna esquerda molhada. Com minha toalha tento secar o que está fazendo-me tremer de frio. Não há nada. Insisto em secar até que o atrito da toalha com a minha perna me aqueça e faça a temperatura subir.
O resto de meu corpo está normal e quente, embaixo das cobertas. Mas minha perna esquerda continua molhada, como se estivesse dentro de um balde com gelo. Passo minha mão por cima de minha perna e: nada. Não sei que está acontecendo.
Pego meu isqueiro e aproximo a chama de minha pele. Não sinto o calor, o frio aumenta e o gelo parece se alimentar do não-calor.
Um cheiro forte de queimado me chega de repente. Estou colocando fogo na minha coberta de lã vermelha.
Pego o copo d’água que está na mesa ao lado de minha cama e jogo em cima do fogo que começa. O fogo se apaga, mas a água molha minha perna direita.
Agora as duas estão congeladas e começo a senti-las doer.
O frio começa a agasalhar meu corpo todo, agora estou descoberta e nua na cama- encolhida.
Algo me impede de levantar e colocar roupas e pegar mais cobertas. Fico deitada com os dentes: tá tá tá tá.
Quero gritar, sair correndo, acender as luzes da casa, me esconder dentro do forno aceso. Mas algo me impede de fazer qualquer movimento.
Sinto-me cansada. A exaustão do desespero me engolfa e de repente durmo, me abraçando.
Mas sei, no momento antes do sono, que nunca mais sentirei minhas pernas do mesmo jeito. Algo mudou, de dentro para fora.

Sobre a morte, que é vida.

É só olhar para o meu passado, mesmo que só de relance, e você pode enxergar que tudo foi sempre uma repetição.
Todas as dores foram apenas uma dor: a vontade de ter dor.
O vazio do qual eu tanto falo, achei que pudesse preenchê-lo com ela. Não pude, e sofri.
Hoje me deparo com uma dor concreta, real, absurda e triste. Hoje vejo que apesar da dor e do vazio estarem lado a lado, eles não vão se juntar.
Eu queria poder resumir tudo a uma dor que conheço e sofrer – do jeito que sei sofrer. Estou vendo, nesse momento, o cadáver. Não só de meu pai, mas também da outra eu que fui ou representei ser esse tempo todo.
Tudo acabou, mas posso ver um começo gerado pelo meu primeiro fim.
Preciso encarar os fatos e não tentar achar desculpas, e essa – sim!- é a coisa mais difícil que já tive que fazer na vida.


-Tá tudo uma merda e sorrir dói.
-Não sorria.
-Eu não estou sorrindo.
-Claro que está.
-Não estou, é você que já não me enxerga como antes.

4.

Houve então algo real no meio de tantas ilusões? Sim, houve o sofrimento.
Houve o sofrimento que hoje não sei se sinto ou se sou. Cada palavra dita na hora errada, cada gesto equivocado, cada afirmação mentirosa: tudo isso eu sei antes de fazer. Sei que vai acabar mal, sei que o mundo vai desabar.
Quero uma desculpa para chorar à noite. Quero poder chorar sem me sentir idiota por estar chorando. Minhas razões são grandes, sim, mas só o são para mim, afinal: elas são minhas.
Sou eu quem está sentindo a dor da perda, da rejeição e da saudade- tudo junto. Sou eu que estou quebrada, sangrando, em um canto, encolhida.
Não é egocentrismo não. E se for, qual o problema? Eu preciso pensar em mim antes do resto, porque são os meus olhos que tenho que encarar todos os dias.
Eu falo e falo e falo- tanto! Mas não engoli as duas verdades que foram jogadas em mim: amarrada em uma linha de trem.
Não quero saber do meu pai morto. Não quero entender que não vou mais ouvir sua voz. Não quero sentir a dor concreta da perda real. Não aconteceu, não aconteceu, não aconteceu. Vou repetir baixinho todas as noites até que algo maior aconteça, ou até que minha garganta sucumba ao tamanho da ausência e deixe minha perda ir para todos os cantos do meu corpo.
Não quero saber que nunca terei companhia na dor. Vou continuar querendo e querendo e querendo: uma mão estendida, um colo disponível, um conforto de amor.
É como o vômito que chega ao fim da garganta e depois volta. É como essa ânsia, mas ao contrário: de fora para dentro.
Às vezes quase sinto a dor que sei vou ter que sentir. Mas logo depois a cuspo de novo, não consigo engolir tantas incertezas sobre a vida e a morte.
Não, não quero saber se outras pessoas já passaram por isso. Eu estou passando por isso agora. Eu perdi meu pai: meu pai que era único e nunca mais vai voltar.
A solidão me engolfa e eu fico sempre presa ao instante em que estamos caindo. Mas o desespero não é do me machucar, sei que vou; o desespero é o de ver os dias passando e me distanciando da memória que não quero nunca esquecer.
Tenho medo de esquecer seu rosto, sua voz, seu abraço. Tenho medo de nunca cair e ficar para sempre com o rosto estampado de incertezas.
Nada pode expressar o tamanho da minha dor. Nem as linhas mais tristes, nem os cortes mais profundos. Ninguém nunca vai entender sem sentir, e ninguém nunca vai sentir como eu.
Sei que o amor que sinto por ele nunca mais vai parar de exalar de todos os meus poros, mas não vai ter nada de volta, entende? Ninguém vai estar atrás da porta, na outra linha, nos outros braços apertando sua filha: eu.
Quero tornar real. Quero um enterro, uma cerimônia, uma tatuagem: uma imagem concreta da dor.
Aquele que sempre esteve todo ouvidos para mim não está mais lá. Não poderei nunca mais ligar para seu número- o único que sei décor- e ouvir sua voz me confortando.
Não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém. Nunca mais vai ter alguém.
A solidão é a maior do mundo. Se sempre estive sozinha, também sempre tive meu pai ali- pronto para me atender. Agora não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém.
Nem me importo mais com repetições, tudo sempre foi uma repetição da dor, da dor, da dor.
Mas a dor nunca foi tão real, tão brutal, tão crua.
Ter a certeza de que isso nunca vai passar não me atormenta. Atormenta-me o: vai diminuir.
Não quero que diminua. Não quero trair suas lembranças e não chorar ao lembrar de seu abraço confortador ou olhar para as fotografias do passado.
O que vai acontecer daqui para frente? Não sei.
Não sei se vou aprender a andar com o peso da saudade. Sinto que até o meu jeito de andar mudou: eu me arrasto.
E minhas palavras, são tão pequenas. Sinto-me culpada por não conseguir expressar direito o tamanho da importância que ele teve para mim, e sempre vai ter.Vou carregar-te comigo para sempre, pai. Para sempre: mesmo sem saber o que isso significa.

3.

Eu quero engolir o nada. Esse vazio do tamanho do mundo me preenche e me esvazia. Quero poder tocar em todos os rostos e sentir em algum pedaço de pele o tato que sinto ao acariciar silenciosa o meu próprio.
Uma de minhas tristezas mais profunda e imensa é essa: nunca ninguém acariciou o meu rosto.
Penso nessa tristeza sem tamanho às vezes com indiferença, às vezes com lágrimas nos olhos, às vezes com raiva e às vezes – só às vezes – nem penso.
Toda a minha vida está atrás de minha nuca e nunca posso olhá-la direito. Não sei se de fato é tudo uma mentira, mas sinto que sim. Sinto que nunca de verdade vivi, somente passei pelos dias, semanas, meses e anos como alguém passa sem olhar para um mendigo que dorme em um banco de praça.
Sinto todo o meu passado tão insignificante diante essa dor que me engolfa e me mantém acordada.
Quero contar sobre minha vida, mas não há nada.
A dor, toda a dor que já senti, é apenas dor e dela nada pode ser falado além de: eu sofri.
Minhas palavras saem sempre do mesmo modo: garganta, língua e boca. Sei que algumas vezes elas passam pela minha alma e são essas as minhas verdades secretas, que mesmo faladas não são importantes a ninguém, só eu entendo delas.
A ilusão que carreguei tanto tempo foi a vontade impossível de ter companhia na dor. Percebi em um momento que de tão importante passou sem nada de extraordinário, que nunca terei companhia.
A dor que sinto está enjaulada comigo em uma sala fechada e distante. Ela me possui de tal modo que nada, nem ninguém, consegue enxergar meu rosto aflito, ouvir meus gritos mudos ou pegar minha mão sempre estendida.
Não sei se depois de parar de jorrar palavras nessa tela branca algo diminuirá dentro de mim. Eu, não sei de nada. E nem minha vontade de certezas pode ser considerada, porque, na verdade, eu também odeio certezas.

2.

Estou caindo em um abismo interminável.
Mãos escorregadias tentam me puxar para cima.
Suas mãos, meu pai, estão presas.
Em um necrotério distante.

A dor destrói tudo como uma bomba jogada sobre os álbuns de fotografia.
Não há mais nada além da ausência daquele que penso não saber.
Não saber do meu amor e da minha admiração:
que vão perpetuar até o espaço e continuar até o infinito.

Meu porto seguro.
Meu pai.
Longe e perto.
Preso e liberto.

As lágrimas virarão flores?
A dor nunca cessará.
A falta vai me comer por dentro.
E eu vou gritar como uma criança de colo:
-Papai!

***

Eu quero dormir por uma semana. Deixar todas as tristezas e babaquices em um plano inferior, evoluir só em sonho.
A vida passa tão rápido que uma vertigem se apodera de mim e tudo gira e eu caio e nada mais faz sentido.
E é sempre assim. Quando o vazio fica presente demais eu anseio por ser possuída por algo maior. Mas, maior do que o quê? Do que eu e minha existência pacata e sem sentido.
Quero a sentir a vida, só para ver como é. Sentir essas coisas que me dizem tão boas e eu só faço cara de quem entende. Mas eu não entendo nada, nunca.
Meu sexo é seco e sem porquês. Meu amor só é amor porque contagia todos e eu o faço existir, sempre pela minha vontade. Minha indiferença é mentira e minhas motivações são inventadas.
Estou sozinha e as amarras só existem entre mim e a tal solidão.
Solidão: essa é a minha palavra.
Olho agora pela janela e percebo que já é noite. Tudo é tão brusco que nem vejo o meio termo.

Tenho nada e me agarro a isso. Talvez seja isso que me distancie dos outros, estou agarrando com toda a minha força o nada, o vazio, o vento e o silêncio.
Não perdi minha esperança. Ela ainda existe, em algum lugar. Mas está sendo massacrada pela realidade brutal da morte, do fracasso e da dor.
Tenho dentro de mim pedaços iguais aos de todos. Mas o pedaço que me falta não é o mesmo que falta aos outros, e é isso que me destrói.
Hoje eu não quero morrer. Hoje eu quero dormir até me tornar inteira sonhos e me distanciar tanto da realidade que toda a dor seja apenas um reflexo que mal conseguirei enxergar.