Luto.


A vida é um soco no estômago.
Às quatro e cinqüenta da madrugada do dia 6 de junho o corpo do meu pai foi achado sem vida no quatro de um hotel em Genebra.
Estou caindo um abismo de solidão e dor, dor, dor.
Sou o negativo de uma pessoa. Não sei mais se existo.
A maior dor mundo está doendo em mim.
Quero ouvir sua voz. Quero olhar seus olhos verdes, tão sofridos. Quero voltar a existir em uma existência plena, e não essa miserável que me foi dada.
Agora não tem mais ninguém do outro lado da linha. Agora não tem mais notícias banais. Agora não tem mais comentários sobre livros que comprei.
Agora que minha vida parou, não tem mais nada.
Eu quero dormir, mas tenho medo do segundo seguinte ao de acordar, aquele em que vou lembrar o que aconteceu.
Eu quero gritar, mas sei que não tenho forças nem para andar mais do que alguns passos trêmulos.
Eu quero meu pai. Eu quero meu porto seguro. Eu quero aquele que sempre me disse que escrever é o melhor dos remédios.
Eu quero um abraço, mas os braços daquele que mais amo estão presos em um necrotério.
Não quero mais imaginar como foi sua morte, mas a cena aterroriza todos os meus segundos desde que soube: sozinho, com dor, morrendo, sozinho.
Crio fantasias de que não era ele. Preciso ver seu corpo, tornar real.
Hoje, perdi todo o pouco que tinha, estou beirando o quase-existir.
Quero o meu pai, só isso.

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2 comentários sobre “Luto.

  1. Não conheço você; não conheci seu pai. Mas sei que sua morte foi uma morte literária, como cabe aos heróis. Assim como os livros que você gostava de comentar com ele.

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