O abismo: entre nós.

A amargura doce de seu quase-sorriso abalava a estrutura tão bem forma que, alheio a outras vontades, Narciso formara para si. Esperava de Estela tudo- tudo menos aquele sorriso amargurado de amor e adocicado de sinceridade.
Fora fácil para Narciso, até então, inventar aquela cena e fazer dela a perfeição, a apoteose de todo aquele sentimento embevecido em paixão ao amor.
Estela tinha os pés pregados ao chão com pregos enferrujados pelo tempo que ainda não havia passado. Não se dava ao luxo de sonhar com qualquer outra realidade que não a que estava vivendo: Narciso.
Impossível seria contar sobre os minutos que se fizeram horas em que os dois amantes apreciavam atônitos sua grande paixão virando água suja a correr pelo meio-fio direto ao esgoto da cidade.
O dia não se fez noite para mais ninguém além de Narciso e Estela. Os olhos que faiscavam pela escuridão diurna e davam aos dois a claridade suficiente para caminhar, de repente se apagaram.
A escuridão que era solidão, ausência e desamor. Essa escuridão tão única os engolfou enquanto tudo se fazia lixo.
Perderam-se um do outro, desencontraram-se. O abismo que se abriu no meio daquela cama era o mesmo, mas a escuridão da queda é única para cada um dos amantes. Não se pode dizer se vivos ou mortos.

A única imagem real é a pequenez do abismo contrastando com a magnitude da perda.