Canção de amor da jovem louca- Sylvia Plath.

Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.
Abro as pálpebras e tudo de novo renasce.
(Acho que inventei você na minha mente.)

As estrelas saem valsando em azuis e vermelhos.
E a arbitrária escuridão chega a galope.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

Sonhei que você me enfeitiçou até a cama
E cantou para mim em desvario.
Me beijou em total loucura.
(Acho que inventei você na minha mente.)

Deus desaba do céu.
O fogo do inferno abranda.
Vão-se os serafins e os homens de Satã.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

Imaginei que você voltaria como prometeu.
Mas envelheço e esqueço seu nome.
(Acho que inventei você na minha mente.)

Eu deveria ter amado um falcão, não a você.
Pelo menos retornam barulhentos quando vem a primavera.
Fecho os olhos e o mundo inteiro tomba morto.

(Acho que inventei você na minha da mente.)

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Lá fora.

Olhava os carros passando pelo ônibus. Sentada, apertada, com livros no colo e um casal se espremendo ao meu lado: ele no colo dela.
Bem ao longe, algumas cadeiras a frente, uma menina chorava: tinha sido assaltada, pelo o que eu ouvi.
A vida estava acontecendo. Talvez vinte e algumas pessoas naquele ônibus lotado, pessoas vivendo: tão longe de mim.
A vida estava acontecendo. Mas aqui dentro, onde eu deveria acontecer, nada se mexe.
O tempo todo é como tempo nenhum preso no segundo seguinte à um terrível desastre.
Faço as minhas coisas, mas nem sei direito se fiz o que fiz ou se pensei. Cigarro aceso ao contrário, xícara de café na geladeira e água fervendo pela minha garganta.
Quando essa coisa tão enorme e sem tamanho vem ela leva tudo. Carrega cada pequeno pedaço de qualquer coisa que eu estava juntando há tanto tempo.
Eu volto, no segundo de tempo nenhum, ao começo de nada.
Mas agora, tanta coisa mudou, e eu já nem sei o que devo começar.

Dia dos pais.

Escondida do frio que bateu a porta: e eu abri.
Estava vendo televisão, apenas olhando para a tela e pensando em coisas à toa: sexo, amor, sexo e não amor, raiva, raiva.
Foi uma propaganda que me tirou daquele estado de estagnação. Dia dos pais. Dia dos pais. Não tinha pensando nisso ao levantar, ao almoçar, ao sentar no sofá para me entregar ao ócio. As piores dores insistem em sumir. Eu esqueço que estou sozinha para o resto da minha vida. Então (explosão), eu lembro.
Uma explosão de Macabéa ou de Lispector (?), mas também uma explosão somente minha.
Algo se quebra, mas é impossível se notar. Talvez todos me saibam tão quebrada que todos os pedaços já formam uma massa única e não pode-se enxergar cada um como algo singular.
Fico assim, entende? Parada, calada- com medo de que tudo desmorone.
Mas já não desmoronou? Agora não é só chão chão chão?
Agora é depois do chão, ainda mais embaixo. Lá onde ninguém se conhece e cada dor é única e maior do que as outras.
Eu grito, não pelo direito ao grito; mas pela esperança de que meu grito me acorde e eu possa continuar.
Eu só quero que.

13.

Acendo um cigarro e paro.
Fecho os olhos e paro.
Parada.
Parada.
Quase inerte.

Aquele desenho,
aquele olho chorando.
Não sei,
deve ter sido um sinal.

A lágrima única:
a perda do único.

Essa dor que quase não dói.
Essa saudade que não acredito,
eu nunca acredito,
que vai viver em mim.

Sempre a noite,
quando paro,
sinto suas mãos encostando em meu braço.
E adormeço,
feliz pela fantasia.
E acordo,
triste por ser isso tudo que me restou:
uma fantasia.