Constatação.

Mais um gole de café enquanto a fumaça do cigarro subia para o teto em forma de bolas.Eram oito e meia e o restaurante- cheio- parecia completamente vazio.
Teve um sonho sombrio com a mãe- que havia morrido há dois anos- vestida com uma túnica vermelha e exalando um forte cheiro de picles.
-O homem já foi à lua.
-E o que diabos ele foi fazer lá?

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O silêncio faz parte de qualquer barulho.

Pára, ouve teu silêncio.
Quando a escuridão engole a luz, eu engulo o nada e o nada me faz vomitar.
Pedaços da alma.
Pedaços do vazio.
Pedaços.
Fico parada na frente da porta e espero que me atendam; mesmo sem eu ter batido.
Minha presença deve significar algo mais do que um corpo no espaço.
Um espaço
no corpo.
Preencho com cortes, beliscões e nada.
É o silêncio no corpo.
É o silêncio
que eu parei para ouvir.

Apenas mais uma órfã;

O dia inteiro eu penso. A noite inteira eu me entristeço por tudo que pensei durante o dia.
E se o tempo que está passando- escrevendo isso já perdi segundos que nunca serão meus novamente- eu me esqueça? Não posso viver com essa pergunta: vou me esquecer?
Tenho medo de que não me contorcendo mais de dor as lembranças podem ir embora e eu serei apenas mais uma órfã. Não terei mais os ensinamentos, as perguntas e as respostas- o que importa são as perguntas.
As lágrimas que passam pela minha boca; o sal é tudo que ele foi para mim- tudo que ninguém mais será.
Ninguem mais será.
Vou guardar as lembranças na caixa em que estão todas as fotos de uma vida- que nunca vai ser esquecida.
É impossível esquecer, que idiota fui eu de pensar nisso.

Não.

Eu vou indo como consigo. Às vezes, para cada passo em frente eu volto cinco para trás. Andei para trás, desandei, cai, não levantei. A vida inteira passa e eu fico olhando completamente alheia a tudo que vejo; eu não pertenço mais a mim.
A janela em frente ao morro verde me encara, mas eu não quero olhar para lá. A natureza que de tão perfeita imperfeita se fez.
Penso sobre a morte. Não viver é uma forma de morrer, Natália. Mas eu não nego a minha não-vida.
É tudo uma sucessão enorme de nãos. Não vive, não morre, não fala, não escreve, não ama, não odeia. Eu não.
E você: sim?