Sobre os melhores momentos:

“Uma vitória louca, uma vitória doente. Não era amor. Aquilo era solidão e loucura, podridão e morte. Não era um caso de amor. Amor não tem nada a ver com isso. Ela era uma parasita. Ela o matou porque era uma parasita. Porque não conseguia viver sozinha. Ela o sugou como um vampiro, até a ultima gota, para que pudesse exibir ao mundo aquelas flores roxas e amarelas. Aquelas flores imundas. Aquelas flores nojentas. Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio.”

Sobre ir e indo ficar:

Estou andando. É muito claro que estou andando. Observo tudo o que fica para trás: a estrada, a loja, a árvore, a casa e a igreja.
Estou andando. É muito claro que estou andando. Mas não estou indo. Só estaria indo se tivesse um destino e, bem, eu não tenho. Acho que nunca tive.
Reclamo de não estar em lugar algum e isso é besteira. Nunca fui a lugar algum, como estaria lá?
Lá aonde? Ah, sei lá, apenas lá.
Algum lugar. QUALQUER LUGAR.
Que não seja esse branco-que-dá-vontade-de-arrancar-os-olhos.

Sobre a simbologia dos meus livros:

Eu me afundo nas linhas desse livro que estou lendo. Devoro as palavras, as vírgulas e os silêncios: devoro todo o sentimento, morta de fome que estou.
De repente então senti uma imensa saudade de algo que nunca mais terei. As manhãs em que chegava na casa de meu pai com todos os livros que havia lido na semana e cada trecho sublinhado, grifado, circulado deixava de ser mudo. Emprestava as linhas que, por mais não minhas que fossem, naquelas manhãs não pertenciam a mais ninguém.
Hoje eu quis poder ir até a casa de meu pai e ler para ele partes desse livro no qual estou me afundando. Mas a casa não é mais dele- ele já não mais está lá, nem em qualquer outro lugar.
Vou contornar minha vontade lendo aqui para quem quiser o trecho que salgou meus olhos e me levou para ‘nem em qualquer lugar’- junto ao meu pai.
“E repetiu em pensamento: nunca nunca nunca mais. Porque quando uma pessoa morria, era para sempre. Mas não conseguia compreender palavras grandes como essas: nunca, sempre. Havia o dia de ontem, o dia de hoje e o dia de amanhã. Havia mesmo os dias de uma semana atrás, de um mês ou, como um grande esforço que quase fazia a cabeça estourar, os dias de um ano atrás. Mas sempre era muito mais que um ano; e nunca muito menos que um segundo. Sempre e nunca- ele imaginava uma coisa muito grande e branca, que a gente olhava de baixo para cima, sem conseguir ver onde terminava. Luciana ia ficar para sempre na parede branca, para nunca mais voltar.”