Sobre o que peço, e não sobre o que ganho:

Minha tempestade acabou, mas a bonança não veio. Fui parada, talvez apartada, por uma mão desconhecida logo no instante anterior ao do impacto mortal com o chão. Desconhecida não pela falta de um nome para ser atribuído a ela. Desconhecida porque há também um peso a ser carregado pelo salvador, assim como há outro destinado ao carrasco. Eu clamo leveza ao mundo exterior a mim, não atribuindo assim esse peso a ninguém.
Os gritos se calaram, era isso o que eu queria. Mas o silêncio também engoliu os outros sons. Os ruídos da vida exterior a mim também se extinguiram. O vácuo da minha existência negando todo o resto como algo que força, penetra e perfura a pele até sangrar.
O peso outrora não atribuído – agora quero dá-lo a alguém e livrar-me totalmente do desnecessário, do que não cabe a mim ou do que não quero para mim. O peso. O peso. É do salvador ou do carrasco? Para cima ou para baixo?
Minha ânsia pelo fim do silêncio que pedi errado, pois não era isso que clamavam meus ouvidos cansados, agora que vejo-me presa em ausências consigo ver claramente que eu queria o fim dos meus barulhos para conseguir ouvir algo além. Viver no meu mundo interior estava me fazendo duvidar se tudo aquilo era eu, quem era eu, quem sou eu?

Sobre o tempo de cada verdade:

Vou me repetir. Vou falar das mesmas coisas. De formas novas, diferentes ou iguais. O conteúdo pode ser tão denso, pode ser tão novo e mesmo assim tão seco. Eu não sou seca e no meu jeito, às vezes até meio torto e distorcido, de ver as coisas é assim que se deve ser para ser de fato alguma coisa – qualquer coisa que seja. No momento em que achei que o grito só podia nascer da dor eu acreditava mesmo nisso. Em um círculo de repetições incessantes onde nada tinha cor ou sentido eu pensei nessa verdade – que foi verdade, mas agora deixou de ser. Então agora a repetição vai ser ‘linda e inesperada’ e o grito não vai nascer da dor.
A minha verdade agora é outra.

Sarah Kane.

Eu amo essa mulher. Porque?

“…e escrever-te poemas e pensar porque é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção do que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebê quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te presentes que tu não queres e levá-los de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que não estou falando sério eu estou falando sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que estou me perdendo mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo e ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algo do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti. “

Trecho da peça Crave

Entrevista:
“Estou a escrever uma peça chamada Quatro Quarenta e Oito Psicose. Tem semelhanças com Falta, mas é diferente. É sobre uma depressão psicótica. É o que acontece com a mente de uma pessoa quando as barreiras que distinguem a realidade das diferentes formas de imaginação desaparecem completamente. De maneira que já não consegues estabelecer a diferença entre a tua vida acordado e a tua vida em sonho. E também, não consegues – o que é muito interessante na psicose – não sabes onde é que tu acabas e o mundo começa. Por isso, por exemplo, se eu fosse psicótica, eu não sabia literalmente estabelecer a diferença entre mim, esta mesa e o Dan. Fariam todos parte de um continuum. E as diversas fronteiras começam a desabar. Formalmente também estou a deitar abaixo alguns limites. Continuar a fazer a forma e o conteúdo num só. Isso tem-se vindo a provar extremamente difícil e não vou dizer a ninguém como o vou fazer, por isso se algum de vocês chegar lá primeiro eu ficarei furiosa. Seja lá o que for que iniciei com Falta, desta vez vai um passo mais à frente. E para mim essa linha é muito clara e vai desde Ruínas através de O Amor de Fedra até Purificados e Falta e até esta agora. Para onde vai depois disso não tenho ainda a certeza.”

O que eu digo sobre a obra dela: apoteose da dor que vira arte mas não deixa de ser dor.

“Estou triste
Sinto que não há esperança no futuro e que as coisasnão podem melhorar
Estou farta e insatisfeita com tudo
Sou um fracasso completo como pessoa
Sou culpada, estou a ser castigada
Gostava de me matar
Sabia chorar mas agora estou para além das lágrimas
Perdi o interesse nas outras pessoas
Não consigo tomar decisões
Não consigo comer
Não consigo dormir
Não consigo pensar
Não consigo ultrapassar a minha solidão, o meu medo,o meu desgosto
Sou gorda
Não consigo escrever
Não consigo amar
O meu irmão, o meu amante a morrer, estou a matá-los aos dois
Invisto na direcção da minha morte
Estou aterrorizada com a medicação
Não consigo fazer amor
Não consigo foder
Não consigo estar sozinha
Não consigo estar com os outros
As minhas ancas são grandes demais
Não gosto dos meus órgãos genitais

Às 4:48 quando o desespero me visitar enforco-me ao som da respiração do meu amante

Não quero morrer
Fiquei tão deprimida com a consciência da minha mortalidade que decidi suicidar-me

Não quero viver
Tenho ciúmes do meu amante adormecido e cobiço a sua inconsciência induzida

Quando acordar vai invejar a minha noite acordada de pensamentos e discursos fluentes pela medicação

Resignei-me a morrer este ano

Alguns vão chamar a isto auto-compaixão(terão a sorte de não saber a verdade)Alguns vão conhecer a verdade simples da dor

Isso está a tornar-se a minha normalidade.”

Trecho da peça 4:48 Psicose

Se alguém tiver algo dela, qualquer coisa, e quiser me mandar eu vou ficar bem contente.

Tem algo sobre ela aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sarah_kane , e um google sempre vem a calhar.