Náusea (depois da).

vou secar. quando anoitecer em mim e eu for me deitar estarei seca. seca. seca. o instante interior ao de perder o controle. o último sorriso verdadeiro antes de ser encharcada em tristeza. viver na espera do desastre inevitável está me matando. tenho medo pelo amanhecer quando me deito e pelo dia que virá quando acordo. tenho medo de quase-morrer. ser metade depois de descobrir como é bom ser inteira.
hoje eu queria secar. há dias não consigo chorar do jeito que gosto. do jeito que gosto, não consigo chorar até a exaustão e um pouco além. hoje sinto culpa pela minha tristeza. é que eu tenho tanto medo. tanto. sei que já disse isso. mas não há nada mais a ser dito. tenho tanto medo de perdê-la que parece que perdi-me de mim.
o telefone sendo desligado enquanto eu ainda falo. o sentir enorme de que se não for ela não será ninguém. ninguém irá querer.
(sim, eu sei que irá: mas a verdade não me pertence mesmo sendo a minha verdade.)
então hoje eu vou secar. ou talvez o nó preso em minha garganta do choro contido contido contido me faça parar de respirar.
hoje eu vou acabar.

Chão morto.

Pé. Meu pé. Meu pé direito. A sala se mostrando à mim: cortina de cetim vermelho, enorme sofá em éle com manchas de não-sei-o-quê. Muitas pessoas, muitos copos, muitas vozes, muita vida. Além de mim. Exterior a mim. No mundo que existe (!) alheio a mim e que de mim nada depende. Nesse mundo há vida. Nos outros mundos, nos outros egos, no outro que não eu também há vida.
Prefiro pensar que sim, ou: estamos todos mortos.
Não tenho tempo para achar algo que comprove. Não tenho tempo para olhar nos olhos e não-achar o brilho, nem para achar: não tenho tempo de olhar nos olhos.
Não tenho tempo de.
Não tenho (olhos).

‘I’m so tired I can’t eveen cry.’

Havia tanto tanto medo lá
meu corpo: estátua de sal

entre eu e
a imagem
a ilusão
a mentira

feita por mim de ti
entre nós,
que jamais transformar-se-ão naqueles laços
de cetim vermelho
que imagei para mim quando menina.

Entre nós
( para nós )
apenas o gelo.

uma mão sobre a outra,
mas ambas minhas,
seguindo para longe

antes que do gelo venha a água e
eu seja levada
pela enxurrada de
sentimento mortos até uma sepultura

que não sei se esquecida ou irreal.