O choro.

A grama verde em frente a casa. O campo interrompido de quando em quando por poças d’água formadas pela chuva que caia sem esforço desde a noite anterior. ‘A chuva cai quando a vida chora.’
Os cabelos sujos presos para trás, o cigarro queimando em sua mão, o quê?, o que é essa vontade de morte pelo amor excessivo pela vida?
‘Essa sede que sinto de viver! De vida que desconheço mas que dela sei da existência- em algum lugar longe longe. Que me tome com força e sem perguntas. Que me tome!’
A vida chora quando a chuva cai.

Quase.

A água quente escorria pelo corpo nu. Não queimava por pouco, um ou dois graus a mais- um ou dois agüentar a menos. Quase-dor virou prazer. A pele avermelhava-se rápido, ficava mais sensível a cada gota demasiada quente. O ‘quase’ e a água viravam vapor; a dor virava prazer.
Bonita a imagem que o espelho lhe devolveu quando o barulho da água cessou, e a dor continuou doendo e dando prazer. Sem contorno, sem identidade. ‘Sou eu, mas pode ser qualquer outra. Ganhei uma possibilidade: ser eu ou ser qualquer outra- melhor outra.’
O vapor havia deixado tudo ali cheio de possibilidades. A pia poderia ser o vaso. A toalha poderia ser o roupão. ‘ eu poderia ser outra, qualquer outra que não eu.’- o vapor devolveu possibilidades que a dor havia tomado.
‘Não, nada tem a ver com beleza ou falta de. A certeza de que é assim de que é certo me atormenta. Viver sem contorno, sem identidade.’
Poderia ser outra e seria feliz. Poderia ser a pia ou o vaso ou a toalha ou o roupão. Mas era ela- repulsiva ela. Seus contornos e sua identidade.

Açúcar.

Amo-te pelos seus horários. Pensando ao avesso do que realmente é os vejo fantasmas que saem do relógio a cada da horta certa, em mim tua, para me lembrar. Coisas à toa, aqui e acolá que roubaste de mim e sem saber sabendo fizeste de nossas vidas algo quase único, coisa quase uma só.
O açúcar vindo da dor confeito fino sobre as tortas de maça cujo cheiro sinto agora ao lembrar que preciso aprender a cozinhar os doces que tu tanto gostas para servir-te nas manhãs ociosas de domingo: café e açúcar.
Risada, voz e ritmo do respirar teus escuto cada vez que nasce em mim vontade de ti. As músicas que formam os teus sons misturam-se e quase emudecem o sempre igual tec-tec do teclado. Aqui não estás, mas cada linha tem a mesma quantia minha e tua. Tiro-te desse altar em que te coloquei e empresto tua beleza e a também a beleza dessa mistura incessante de sentires para criar algo teu enquanto tu não estás aqui- para que a saudade não me coma por dentro.
Saudades tantas e tão sem por quê. Mesmo quanto te tenho ao meu lado morro de saudades pelo tempo em que a senti, mas não sabia. A falta de alguém cujos traços do rosto, o nome e o sexo eu desconhecia. Alguém que estava por vir e pela qual a chegada eu esperava todo o dia e era tanta tristeza quando a noite caia e a fome de amor não se aquietava dentro de mim.
Uma dúzia de rosas, amor meu. Seis do jardim que embelezam e seis da confeitaria que alimentam.
Seis amontoados de trinta dias: muito açúcar e muita beleza.