Quase.


A água quente escorria pelo corpo nu. Não queimava por pouco, um ou dois graus a mais- um ou dois agüentar a menos. Quase-dor virou prazer. A pele avermelhava-se rápido, ficava mais sensível a cada gota demasiada quente. O ‘quase’ e a água viravam vapor; a dor virava prazer.
Bonita a imagem que o espelho lhe devolveu quando o barulho da água cessou, e a dor continuou doendo e dando prazer. Sem contorno, sem identidade. ‘Sou eu, mas pode ser qualquer outra. Ganhei uma possibilidade: ser eu ou ser qualquer outra- melhor outra.’
O vapor havia deixado tudo ali cheio de possibilidades. A pia poderia ser o vaso. A toalha poderia ser o roupão. ‘ eu poderia ser outra, qualquer outra que não eu.’- o vapor devolveu possibilidades que a dor havia tomado.
‘Não, nada tem a ver com beleza ou falta de. A certeza de que é assim de que é certo me atormenta. Viver sem contorno, sem identidade.’
Poderia ser outra e seria feliz. Poderia ser a pia ou o vaso ou a toalha ou o roupão. Mas era ela- repulsiva ela. Seus contornos e sua identidade.

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