Sobre a praia.

O mar ia e vinha. Algumas vezes vinha perto demais, passava por mim e a cadeira afundava na areia. Outras vezes era o vento que vinha demais e secava a água salgada do meu corpo e quase me fazia sentir frio.
Também havia a saudade. O mar, o vento, a areia e a saudade. Em nove meses nunca fomos à praia. Aquela praia feia. A água tão bonita e a areia cheia de gente e de cor e de tudo que não é nada belo. Não que eu me importe muito. Só me importo com a saudade- que sendo minha ninguém pode acabar com a sua beleza triste e chorosa.
Não pode ocupar muito espaço, essa saudade. Lava-se a roupa, faz-se a unha, pinta-se o cabelo. Aquele livro de setecentas páginas vai se acabando. Aquelas barras de chocolate nem existem mais.
O que importa é gastar cada minuto rápido, o mais rápido possível. Quando perceber a saudade já não mais será nada além de vontade de ter mais do que já se tem. Ela ao meu lado de novo.

Por esse ângulo.

Acendeu um cigarro, ao contrário o gosto do filtro queimado lhe chegou a boca e demorou a perceber o que estava errado naquele primeiro terceiro cigarro do dia. Ficou feliz ao ver que havia outra carteira cheia e que não precisaria sair de casa- não hoje, quem sabe nunca mais.
Seu apartamento era de homem solteiro pratos e talheres de plástico caixa de pizza dobrada e enfiada dentro da geladeira vazia a não ser pela um lata de cerveja solitária e uma Coca para a ressaca inevitável. Era apartamento de homem solteiro, mas ela era uma mulher e gostava de homens e fazia as unhas e pintava os cabelos- tudo tudo tudo errado.
E também não era solteira, se olhar assim desse ângulo. Tinha aliança no dedo anelar da mão direita, tinha fotos d’Ele pela casa e tinha até umas camisas sujas para lavar. Mas as camisas estavam para lavar há três meses, as fotos eram de polaroid e a aliança só estava ali para não precisar explicar para ninguém o que tinha acontecido. Explicar como? não sabia, não tinha a mais vaga idéia do que havia acontecido.
O telefone quieto quieto quieto parecia sempre estar prestes a tocar. Dava para ouvir o silêncio de antes do toque alto e estridente. Dava para ouvir o silêncio mas o toque não vinha e só ficava a respiração presa e quem será?
Mas não era triste essa falta de. Falta de tudo. Era só um fato como outro qualquer. Como eu estou acima do peso, precisando de dinheiro e com vontade de comer goiabada, ela estava perdendo a cor, o brilho e a identidade. Naquele livro: “estou acostumada a estar morta”. A gente se acostuma, cansa de ficar em pé, senta e de repente já é tão normal a situação que qualquer coisa diferente pareceria muito distante.
Tinha alguns cadernos e livros espalhados pela cama. Certamente entre tantas linhas haveria uma ou duas que traria um pouco de conforto. Mas quando começou a ler um dos cadernos e viu que estava tudo escrito, tudo o que estava sentindo naquele momento já estava escrito antes que uma hora acabaria sentindo. Sentiu-se profetizada fadada e completamente sem saída.
A coisa toda fora prevista por ela quando percebeu no que tinha se metido. Era amor. Era amor e ponto. Amor bem simples. Amor de três letras. Não era desespero nem obsessão nem nada ao qual ela havia associado esse sentimento até então: quinze de outubro de dois mil e dois.
Não vai dar para dizer que Ele me destruiu quando acabar porque ele me dará praticamente todos os tijolos que formarão a fundação que me tornarei.
Completamente nova a idéia de sofrer toda a dor que virá sem jogar nenhum pouco dela nas costas de outro. Novo que assusta. Assustaria mais se uma coisa não permanecesse igual: quando acabar e sofrer toda a dor que virá.
Foi bonito. Foi tudo muito bonito desde quinze de outubro de dois mil e dois até três meses antes do agora sentada-na-cama-com-livros-e-cadernos-ao-seu-redor.
Mas falar do passado dói, não dói? Não em mim porque esse passado não é meu, mas doendo nela dói também em mim porque sinto sua dor como sendo minha- agora que a uso como matéria prima ela é um pouco, não é?
E tudo gritava no silêncio do dia em que: há três meses não te vejo. O grito do silêncio. Ouvir os barulhos do corpo, da casa e da rua. Ela se encomoda, mas quando a boca se abre é só isso, só fica aberta e não se mexe e não produz nenhum som.
A tentativa de falar era sempre interrompida por algum outro barulho- que nunca vinha dela. A geladeira estalou alto. Levou um susto achou que fosse alguém batendo à porta. O resto foi invenção: a chave girando na fechadura, Ele entrando e os três últimos meses sumindo no que viriam a se transformar em mais três anos.
Não, não foi nada disso: foi só a geladeira velha que tinha ganho de seu pai quando fora morar sozinha. Mas o estalo da geladeira lhe deu coragem para se vestir e ir ao orelhão na frente do prédio ligar para Ele.
Adentrou o calor insuportável do corredor onde não tinham ventiladores no seu rosto. O elevador demorou tantos quase dois minutos que desceu pelas escadas: depressa, depressa.
Não ligou de casa porque ele veria o número e talvez não atendesse “ ouvir você se lamentar dói mais em mim do que em você, acho que em você nem dói- você gosta”.
Não eram os números, eram as posições deles. Tocou. Tocou. Tocou. Caiu na caixa postal. Talvez até seja melhor assim, falar sem que ele a interrompa ou que desligue.
“Eu vou falar rápido porque se pensar muito eu não vou conseguir mais. Tudo está completamente fora do lugar e eu estou perdida dentro do nosso apartamento. Não vou pedir para que você volte, não vou. Mas se você voltar eu vou estar aqui no exato mesmo lugar em que você me deixou usando a mesma roupa e com a mesma expressão surpresa e aflita. E se não voltar eu vou morrer um pouco para matar a parte de mim que existe em você e a parte sua que existe em mim. Vou matar você dentro de mim para tentar me lembrar de como eu sou quando sou eu e não nós. Amanhã às duas da tarde eu não vou estar em casa, se quiser passar aqui para pegar as suas coisas. Não quero te ver porque estou me desintoxicando de você. É, estou me livrando da única coisa boa em mim- a vida é louca mesmo.”
Ficou alguns minutos respirando forte e ofegante, falar aquilo era correr uma maratona- ou pior, era pior.
Os minutos que demorou para voltar ao apartamento foram solidão-solidão-solidão. Ele tinha dito adeus. Há três meses ele tinha dito adeus. Mas só agora ela tinha concordado com a sua ausência, com a sua partida. Agora não tinha mais o eco repetitivo, tinham as suas palavras. Ditas com pressa e sem respirar, tinha uma respota. Era o fim daquela linha.
Abriu a porta que tinha deixado destrancada talvez na esperança de que alguém levasse de lá tudo do qual ela nunca conseguiria se livrar. O cinzeiro preferido dele que ela tinha deixado cair e passado horas colando cada pedaço com superbonder. O tênis que ela odiava e que mesmo assim tinha dado a ele em seu aniversário do ano anterior. Os bibêlos de tia que tinham comprado em uma feira de atingüidades. Tudo naquele apartamento estava encharcado com a sua história com Ele. Nada que ela fizesse a faria esquecer. Sempre que olhasse para aqueles objetos, para aquelas paredes, para aquele chão lembraria do amor que no mesmo instante em que ela tentava entrar em casa já estava começando a morrer dentro dela.
Pensou que era preciso trocar os lençóis da cama que nem na cama mais estavam: jogados pelo chão porque à noite ela se movia freneticamente procurando seu amor e nunca nunca o achando.
Sentiu o seu cheiro no travesseiro. Aquele cheiro de shampoo e de suor e de todo o resto que fazia daquele o cheiro dele. Não foi de repente. Desde que ele havia indo embora ela estava adiando aquela cena tão tão comum. Quando ainda não moravam juntos depois de fechar a porta e ficar observando-o pelo olho mágico, quando ele era engolido pelo elevador velho e barulhento ela corria até o quarto e afundava seu rosto no travesseiro em que ele havia dormido. Podia ficar assim até ele voltar ou até que o cheiro acabasse ou até que o cheiro ficasse também impregnado no rosto dela.
Mas dessa vez foi rápido. Teve medo de acabar com o cheiro porque sabia que daquela vez ia acabar e acabar mesmo e acabar para sempre.
Foi a cena mais teatral da ato daquele rompimento. Tirou a fronha pegou os lençóis e colocou tudo dentro da máquina de lavar com a delicadeza de quem coloca uma criança em seu berço. Só que a criança estava morta e a máquina era seu túmulo.
Quando a máquina começou a lavar o único pedaço dele que ela ainda tinha- mesmo não sendo um pedaço concreto. Quando teve certeza de que nunca mais ia sentir aquele cheiro ela não pode mais.
Não pode mais continuar em pé nem manter os olhos secos nem a boca fechada e quieta. Caiu e chorou e gritou gritou gritou. Chamou-o sem dizer seu nome porque assim ‘ele não veio porque não sabia que era ele quem eu estava chamando’. Chorou feia. Aquela censura de nunca parecer completamente desesperada não pareceu caber àquela cena. Não havia ninguém ali, ninguém ninguém mesmo- se olhar desse ângulo vai ver que nem ela mais estava ali por completo.
Cravou suas unhas em seu pescoço e não era mais aquele alívio de antes porque agora ligava aquele gesto à Ele e no pescoço dele nunca mais fincaria suas unhas forte forte forte com medo de o machucar e ao mesmo tempo querendo fazê-lo.
Quis muito ligar para alguém e falar falar falar sobre aquela vontade imensa de se acabar. Só que não tinha mais ninguém. Escolheu-O a todo o resto e não se arrependia- nem mesmo naquele momento em que se sentia a única pessoa do mundo, porque o mundo era ela e Ele.
E Ele não estava mais ali.
Ele não estava mais ali.
Ele nunca mais estará ali.
Talvez, um dia, ela volte a estar em si mesma. Talvez um dia, não hoje: hoje ela está perdida dentro das várias caixas que ele levou embora do apartamento fazendo daquele lugar apenas dela e ela nunca iria suportar essa idéia. Ser somenta ela depois de ter passado tanto tempo sendo nós.
Talvez um dia ela consiga desatar os nós do nós e volte a se conjugar na primeira pessoa do singular- talvez ela volte a aceitar sua singularidade.
Talvez.

Significados.

Quando precisei de tudo que meu bem poderia me dar. As palavras todas que seriam ditas e dentro de mim foram antes ensaiadas para chegar a perfeição e nunca perfeitas seriam se saissem de minha boca trêmula.
A imagem não combina com perfeição. O cigarro entre os lábios e as cinzas quase caindo e sujando todas as letras.
Vai e vem. Anelar, indicador, dedão. Vai e vem. Lá, sol, ré. (Nada entendo da melodia, mas me acho nas letras.)
‘Now you have it, so tell me, baby, what’s the word?
Am I your gal, or should I get out of town?’

Dê-me dois dias.

Tudo desaparece. Do começo ao fim. Os resquícios que ficam como marcas de algo mal apagado com o tempo também não estão mais presentes. As datas perdem-se e a comemoração parece sem sentido- dia como outra qualquer.
É morte. É triste. Existem lágrimas, soluços e vontades momentâneas. Existe essa confusão dentro de mim, dentro da minha cabeça onde eu me perco e já não sei se sim, se não. Esses dias e essas noites onde tudo é incerteza.

Outra coisa.

Quando foi que todo o amor se transformou em outra coisa? Outra coisa qualquer. Suja. Feia. Ferida aberta sendo mexida e remexida.
O beijo tornou-se mordida e no meio do afago perdi parte de meu rosto. O afago tornou-se soco e fiquei dolorida e toda roxa.
O amor tornou-se outra coisa. Pior do que qualquer ferida ou roxo foi o desamor inundando o espaço que se abriu. Abismo entre nós. A mentira. A mentira!
Voltei a primeira pessoa do singular. Voltei a ser eu e nada além. Assim incompleta, cheia de dor e de saudade. Volto a ser outra coisa assim como o amor tornou-se outro- não amor, aquilo é ódio.

Sem lua.

O céu nasce. Certo, certo. O sol sempre está lá: se o vejo ou não, se o sinto ou não. O céu nasce. Vida nascente ao nascer do céu de cada dia. Céu noturno às quatro da tarde. Vazio. Ausente. Escuro. Morto.
Estado vegetativo. O céu que ilumina meu sol quase morto, quase vivo, quase quase. Espero um novo céu nascer e talvez amanhã, daqui há um mês ou um ano às quatro da tarde o céu estará claro e vivo vivo vivo.
Hoje: escuro o dia todo. Quase céu. Quase sol.