‘She’s lost control’.

Nos dias quentes e o suor pingando perco o controle. Algo se quebra, algo se mexe: algo diz em silêncio que vá! Perdi o controle de novo.
São só mais alguns sintomas. Vou fazer o que posso. Marcarei uma consulta de emergência. Juro que vou tomar todos os remédios. Juro que vou em todas as sessões de terapia. Não vou mais me perder em descontrole.
Só que tem algo que me incomoda, como cabelo na garganta ou o quase amanhecer. Não. Não sei se não é assim que vou ter que viver. Se perder o controle não é o meu funcionamento.
Mas vou parar de gritar. Não quebrarei mais nada. Não tocarei mais em facas. Vou colar sorriso prozac no rosto e fazer tudo que tem ser feito. Viver a vida que tem que ser vivida (?).
O perigo é a noite de sono de todos enquanto eu penso em tudo que não devo pensar. Mas, de novo, não será esse o meu funcionamento?
As coisas estavam indo bem. O meu método de lidar com a vida, com a dor e com todo o resto estava funcionando. Ele é estranho e pouco saudável. Mas estava funcionando.
Mas vou parar de gritar. Não vou mais me jogar no chão. Vou esperar as noites de sono de todo o resto do mundo e só então vou perder o controle. Só para mim. Só o meu controle. Só o grito baixo e o se deitar no sofá. É tudo muito simbólico. Mas acaba sendo a mesma coisa.
Assim que amanhecer e que o horário me permetir vou ter o controle e vou marcar a consulta de emergência. Dá vontade de risos no canto da boca: tudo é uma emergência- viver é uma ordem.
Mas, eu juro, vou manter o controle.

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Ela me pediu poemas:

O frio em mim;
roubas-te minha camisa vermelha,
tiras-te de mim os abraços de calor.

Quero que digas sem palavras dentro de mim:
não vai demorar.
Quero que digas entre beijos e afagos que:
não, não vai partir.

O sol enfeita de gelo o céu de verão-
diz-me agora,
agora e sempre;
que o céu é o mesmo.

A cada palavra torta,
morta
e fria.

A cada dia feio,
manhã sem sol:
dormir sozinha.

As pequenas mortes estão,
matando em mim as flores que me deu.
Os espinhos de ausência envenenam qualquer um.

Antes que eu morra;
me compre flores novas.
Renoveas a cada dia ou:
não vá, não!
Não vá.

Carta ao meu amor.

Estava pensando em algo enquanto esperava o ônibus. Era algo romântico e lindo de doer. Palavras que fariam a diferença, tenho certeza. Pensei em pegar meu caderno e escrever, mas decidi esperar chegar em casa e fazê-lo aqui. Em pensamento escrevi a você as linhas mais lindas que jamais foram escritas, mas as perdi. Faço força para lembrar. Quase consigo e, de repente!, some. Perdi para sempre as linhas que me fariam a melhor escritora e a mais devota amante. Um enorme desperdício.
Pensei que se você lá estivesse talvez eu já falasse as tais linhas, que seriam apenas palavras e nada teria sido perdido. Mas não. Eram linhas e tão bonitas porque eram feitas de saudade, tristeza e amor- amontoado de tudo isso que se alimentava da sua ausência.
Abri a janela para que a fumaça do cigarro que hora ou outra precisarei acender não empesteie o quarto. Já sei. Todo dia longe de ti vou te escrever algo. Farei dessas linhas a nossa conversa- você tão muda. Será que algo muda? Se nada mudar, então terei páginas e mais páginas de pequenas coisas que precisei escrever ao amor de minha vida. Amor de minha vida: isso não muda- isso é um grito.
Essa idéia de não saber onde você está me destrói. Qualquer ‘não saber’ me destrói. Quando em relação a você: caiu uma bomba e alguns dos meus pedaços os pombos já comeram.
Estava passando hoje no chafariz- aquele ao lado do mercado em que um dia vimos crianças tomando banho de piscina. Havia uma mulher chupando uma manga. Quem chupa uma manga no meio do centro da cidade, sentada na borda de um chafariz? Mais a frente vi dois homens brigando por que ‘ esse é o meu ponto!’. O dono do ponto tinha uma faca. Talvez fosse o ponto onde as pessoas vão para chupar vossas mangas de cada dia. Fiquei sem saber.
O telefone não quer tocar. Você não quer me ligar. Para que ter um telefone se você não vai me ligar? Soa-me completamente inútil a idéia. O seu número mudou a poucos dias, mas já consigo o discar até de olhos fechados. Bem rápido, assim, sem nem saber para quem estou discando. É automático ligar para você- mesmo que eu queira pedir uma pizza.
Se te ligar agora toda essa minha linha de conversa-com-meu-amor-que-não-está-conversando-comigo vai ser quebrada. Mas a vontade é tanta! Tanta! Vai me atender mal, tenho certeza. Está tão brava comigo. Disse que não quer mais nada comigo, que acabou. Eu não aceito. Sou criança que não quer largar o pirulito- como você disse. Por isso vou te ligar e ser maltratada e, aí, vai lá saber o que vai ser de mim o resto da noite.