21:08

‘Should I go
If she calls out my name?
And if she bleeds
Should I wipe up the stain?
And if I’m low
Can I drown in this rain?
I guess I’m no good
I guess I’m insane.’

+

nesse inverno o tempo é de esquecer.

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love (still) burns.

terei medo. passarei noites acordada. fumarei cigarros demais. andarei pelas ruas procurando por alguém. sentirei frio. perceberei que a cama ficou muito grande. farei sexo com completos estranhos. beberei até cair. usarei drogas demais. chorarei escondida no escuro. deixarei de tomar meus remédios. pararei de ir a terapia. escrevei cartas de puro desespero e as rasgarei logo em seguida. amarei um garçom por drogas de graça. gastarei todo o meu dinheiro. engordarei quatro quilos em uma semana. perderei sete na seguinte. pensarei em suicídio. tentarei te esquecer. farei da minha vida algo seco. destruirei tudo em mais uma tentativa inútil de provar a mim mesma que é possível a vida sem ti.
não é. nunca será,
meu bem.

4:48

guardo minhas orações para você. talvez eu não faça certo, embora não ache que haja um jeito certo de se pedir a alguma coisa maior, alguma coisa inventada. pedir desesperadamente por uma outra chance para errar tudo de novo. peço por você e sinto deus dentro de mim. peço que sua vida dê errado. que todos os seus planos falhem. peço que tenhas teu coração machucado, dilacerado, partido em milhares de pedaços. peço que perda teus pais. teus amigos. que fique sozinha no mundo e que sofra. peço para que sofras. e depois disso tudo peço para que voltes para mim. não importa o jeito. se inteira ou partida ao meio: só peço para que voltes.

20:20

chove. ando devagar por essas ruas cheias de lama. atraso-me por querer: não gosto da minha casa e do que ela me faz lembrar. as lembranças- todas!- são algo que eu gostaria de me livrar de uma vez por todas. talvez assim eu tivesse uma chance de sobreviver a esse inverno.
enquanto ando pelo lado da estrada um carro passa por uma poça e molha-me dos pés a cabeça. quando chegar de novo o verão já terei desaparecido. pouco aos poucos. bem devagar. um olhar. um gesto. algumas palavras. e: eu não sou mais eu.
perdi-me por completo. pelo amor ou falta de. fui encolhendo. arrastando-me para o canto. e, olha só!, agora eu não sei como sair do quinto canto da minha própria vida.
mas agora chove. não acho as chaves. vou sentar um pouco aqui e olhar a montanha. quero ser verde. quero ser água.
quero ser eu. voltar a ser o que era antes. sem essa palidez, essa tristeza, essa falta de vontades.
mas talvez já seja tarde. o inverno chegou e o cobertor ficou grande demais.

02:22

quando? quando isso vai parar? acordo todas as noites com a sensação de que você vai voltar- que talvez esteja voltando naquele momento, um segundo antes de tocar o interfone ou bater na porta. espero. o interfone continua quieto. na porta, só o vento. as noites são frias. a nossa cama aumentou desde que você foi embora. perco-me entre cobertas, travesseiros e ausência. mesmo quando há alguém ali- como ontem- abraçando-me enquanto durmo: mesmo assim é só o vazio.
mas não. eu sei que o amor acabou. o que sinto é outra coisa. é saudade. é medo. é resquício. é um fantasma que me atormenta. lembrando-me e lembrando-me de que talvez a felicidade nunca venha para esses lados da estrada.
há o carinho. os beijos. o sexo. as tentativas todas inválidas de me fazer abrir a porta de novo.
‘sabe o que é, coração? é que da última vez que abri a porta o que parecia brisa de verão era na verdade um furacão que destruiu tudo. me fez em pedaços. quase morta que fiquei. melhor você entrar pela janela, ou ficar aí do lado de fora.
sabe o que é, coração? tem esse alarme. tem esse medo. essa tal de profecia. quando alguém chega perto demais eu recuo. transformo-me nessa mistura de tudo que eu não sou. talvez para preservar-me. ou talvez por medo. a merda: com certeza por medo.’