Rotina,

L.,
É assim que me sinto todos os dias. Fico olhando pela janela para as árvores e para o céu. A beleza lá fora só aumenta esse desespero feio e essa vontade de acabar. Cada segundo é tempo demais agüentando observar tudo perder a cor e o sentido.
Trinta dias de tristeza, dez de total desespero e cinco minutos de não sentir nada.
O melhor é não sentir nada.

Carta:

L.,
Esta noite sonhei com você. Nada fazia muito sentido- nos meus sonhos é sempre assim. Mas foi bom. Qualquer fuga dessa realidade ridícula a qual me tranquei me agrada.
É verdade que não sonhava com você há anos. Talvez deva encarar isso como um sinal. Talvez sem saber eu esteja escolhendo a dor alucinante a essa vidinha sem cor e sem gosto.
Eu sempre fui assim- sempre escolhi o gosto de sangue a gosto nenhum. Mas hoje estou tão seca que.

Carta;

Ando pensando muito nas escolhas que me trouxeram até aqui. Nas bifurcações dessa estrada toda esburacada. Sempre que escolhi seguir por um lado acabei por matar toda uma outra vida que desconhecida não posso saber se melhor ou pior. Talvez nunca tivesse vindo para essa cidade que odeio. Talvez não tivesse a maioria das experiências que tenho. E, ainda mais talvez: estivesse conversando com você em vez de escrever essas linhas que nunca chegarão a ti.
A minha vida é um salto no escuro. Mas hoje pensei o que teria acontecido se tivesse mantido o controle e não saltado rumo ao total desconhecido. Talvez estivesse agora em terra firme e não nessa queda-que-não-acaba-nunca.
Saudades do que nunca foi. Mas, por Deuses!, poderia ter sido tão belo.

Manhã,

O quase nascer do dia era o canto do galo todas as noites às duas da madrugada. Sempre acordava no susto de ter perdido a hora. Olhava o escuro pela janela e voltava a dormir com o prazer-de-mais-seis-horas.
Eu hoje acordei
no susto de
ter perdido
toda uma vida.