Para não morrer mudo.

 

 

A noite entra pela janela aberta: a brisa que anuncia a chegada do outono acaricia meu rosto. Você dorme na cama que um dia foi nossa. Sou tomada por uma tristeza que faz jus ao tamanho do nosso amor. A claridade do computador ilumina a janela e por vezes quase posso enxergar o amor saindo rumo a nunca mais.
Começo a reler cada carta. Não posso evitar uma lágrima de surgir a cada linha- nunca lidei bem com essa condição humana: nunca lidei bem com o fim. Vezenquando você me pede para abaixar o volume. É, meu amor acabado, depois de dois anos do maior amor do mundo nossas últimas palavras serão sobre o som estar alto demais. Se você pudesse enxergar com os meus olhos talvez o silêncio brutal de quando não há mais nada a ser dito se sobrepusesse a voz de Basia Bulat. Mas talvez tenha sido esse o grande problema: nunca enxergamos nada com os mesmos olhos, quiçá jamais ao menos olhamos para a mesma direção. Outro fim não seria possível para essa vida que vivemos juntas. Sempre fui eu que fiquei acordada me derramando em tinta enquanto seu respirar de sono vinha de debaixo das cobertas de verão. A saudade do que nunca vai ser não corrói tanto agora. A vontade de viver outros mundos me dá certo conforto. Concerto número 5 é antídoto para o silêncio que me doia.
Então foi assim. Vivemos a vida que nos foi dada e agora já é tempo de morrer para o nós. Agora já é tempo de não te escrever linhas que você nunca lê. Agora já é tempo.

Sobre o abrir-se,

Nessa demora em deixar o abraço dos lençóis era quase recolher do sol quando abri as cortinas. A chuva caia forte molhando a poeira dos dias desde setembro e transformando o parapeito da janela em mangue. A bagunça cultivada em dias que essa casa não era a minha incomodava meus olhos: hoje eu limpo.
Everybody’s gotta learn sometimes e eu aprendi a esperar peixes se alinhar a sagitário com sorriso no canto do rosto e nos olhos o brilho de um mar de possibilidades.

Oh well,

A porta abriu-se tímida e meus olhos cansados fugiram do olhar metade íris e metade madeira que me encarou com aquela ausência do tal impulso vital. Esquivei-me do abraço que, na outra vida de dez dias atrás, continha em si tudo o que eu julgava necessário. Um pé depois do outro fui desbravando o apartamento com a cautela de quem pisa em chão de madeira comida. (Tal o cupim come a madeira eu cuspi qualquer sentimento transformado-o em pó em volta dos móveis.) O que aconteceu em mim foi um renovar de olhares: enxerguei tudo agora o que antes cerrava os olhos e me dizia cega. Mãos dadas a um novo sentir que engatinha no meu peito andei um andar seguro por entre sala, cozinha & quarto. Contei dos dias e das noites e toda aquela surdez que me dava ânsia de gritos transformou-se em dávida. Conversa de mim para mim.
-São possíveis outros quartos e sentires e por quês. É justamente essa a beleza de nascer a cada acordar e morrer a cada dormir.
Os cômodos de quatro paredes pareciam iguais a não ser pela chuva que banhava meu rosto com a certeza de que o teto não mais me aprisionava.

Casa da diversão;

A noite toda foi a mesma pergunta. Teu nome? Eu dizia com preguiça, nunca olhando em seus olhos, com um copo de uísque na mão direita e um cigarro na esquerda. Teu nome, teu nome. Eras para mim uma massagem no ego até que veio a minha mente que a dor era n’alma.
Na vitrola Fiona Apple e: I wanna make a mistake, I’m gonna do it on purpose, I’m gonna waste my time.
Com as frases dela coladas a meu canal auditivo era noite quase dia e eu só queria esquecer de mim como você fazia há cada três respirares. Teu nome?
Levantei cambaleando da cama sete vezes e fui repousar meu cansaço no quarto ao lado. A cama. A cama. Os lençóis de seda e o travesseiro de pena de gansos. Não soube meu nome n’aquela cama quando me afundei no meu próprio cheiro que impestiava a fronha. No clímax do amor com a desconhecida de mim entras no quarto como se terça feira a tarde. Trazia dor nas mãos, deixei-te entrar. As carícias, todas!, carregadas de saber meu nome. No chão só o nome dela pintado com a tinta dos desesperados.
Era dia. Fiona continuava repetindo indo indo nos meus ouvidos cansados quando tranquei a porta e deitei na cama. Antes de entregar-me àquela vontade de dormir mil sonos só a constante: amanhã temos que acordar cedo.

Sobre as coisas não entendidas;

Os carros passam pela janela desse andar térreo cuspindo sujeira & barulhos altos demais. O celular jogado na cama grita pela falta da bateria: pela falta da força gritamos os dois como se sinfonia muda da solidão. Quando amanhece e meus olhos permacem abertos e secos sempre olho para fora e sou espectadora solitária do show esquecido de cada manhã. Imagino em mundos além do meu próprio quantos espectadores assistem ao ritual da vida que vive para além das nossas (in)certezas. Minha fragilidade forte me dá a coragem suicida de dormir e acordar e dormir e acordar.
E dia desses um sol nascendo envolto pela poluição dessa cidade que me contem e me repudia em uma relação de amor e ódio não enxerguei em mim todo desespero e tristeza. Nesse amor que tenho inventado além dos nós e pedras do caminho. Nesse amor onde eu sou objeto e sujeito tenho o controle de cousas que julguei incontroláveis.
Banho-me em suposições de chegadas que são partidas e reecontros que não sei se sairão do mundo das idéias. Agora respiro fundo e a merda com os ‘se’s. Vou guardá-los no fundo da mala e só encará-los de volta quando voltar para a ilha que não tem nada de santa.

Tarde de domingo,

O calor invadia toda a casa. Mesmo deitada dentro da banheira Luciana podia sentir na ponta de seu nariz- única parte de seu corpo que não estava submersa- uma gota de suor rolando vagarosa ao encontro da água e da espuma.

Fora da banheira havia somente o caos. Pétalas de rosas espalhadas pela casa: meia dúzia de rosas chilenas cortadas, mastigadas e cuspidas. Os caules- e os espinhos- continuavam espetados na espuma do vaso. O que feria eram as pétalas: era o que um dia foi bonito e agora jaz no chão sujo ainda mais feio do que o que feio sempre fora.

A gata estava deitada em cima da pia e hora ou outra piscava um olho: sempre o esquerdo.No olho de Luciana hora ou outra nascia uma lágrima: sempre no direito.

Tanto barulho. Tantas coisas arremessadas. Tantas palavras afiadas. Tantos sentimentos ao avesso. Por anos gritara o amor e, constatando sua ineficiência, decidiu gritar o ódio. Porque isso não tá certo, não tá certo. Ninguém agüentaria isso, ninguém. Não, não fala que eu estou fazendo drama. As rosas? As rosas perderam o por quê. Toma! Engole as rosas. Fode com as rosas. Eu pago! Quanto foi?

Os lírios continuavam em cima da geladeira: sobreviventes do massacre.Talvez o destino das rosas seja sempre mesmo mais sombrio.

Um livro e: quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas.

Luciana estava de olhos fechados.