I get along without you very well.

O que são então essas lembranças que chegaram a mim hoje junto com os raios de sol do meio dia? Odeio o fim, mas sempre vou amar o começo. Aquela pessoa que perdeu-se entre gritos e ausências. A calmaria que precede a tempestade- ou que a sucede? No olho do furacão abri os olhos e enxerguei algo que hoje desconheço. Estamos perdidas nesse moinho que é a vida- nos levando cada vez para mais longe de quem éramos no começo. Esse perder-se e achar-se tantas vezes em apenas um nascer e morrer do sol. Em mim. Nessa pessoa em quem você se transformou não imagino que a perda e o encontro aconteçam. Imagino-te hoje como a falta de perguntas que vem logo antes da falta de vida. E são tantas palavras. Vou dizendo sobre as pequenas epifanias da noite e de repente ao olhar para as árvores lá de fora enxergo também que você é apenas uma personagem que criei no momento exato em que te vi perder-se de mim. As lembranças que hoje me acordaram são aquelas que me encantaram em um verão perdido no passado e que me fizeram querer mais- e criar. A grande epifania da noite foi que dentro do começo estava também o meio e o fim. (Essa minha maldição de inventar vidas e amores. De usar a vida como papel em branco e sem pautas.)

(Depois do) limite.

Então meus dedos de unhas ruídas percorreram toda a extensão da cólera que nascia em minh’alma transbordando pelo nariz olhos e boca. O olhar fixo em algo concreto mas as idéias transpassando esse mundo do sólido. Quis mostrar o revés de tanto amor jogado no lixo, mas você sempre sem ouvidos para a vida que não te acaricia o ego. Já era tão tarde em mim quando finalmente consegui olhar para os teus olhos e não ver nada além das ausências de tudo o que importa nessa vida, e além. Consegui naquela tarde chuvosa e as gotas d’água fustigando minha janela, consegui enxergar na tua mudez a falta do que falar. Monstro sem língua sem alma e sem cor que entrou na minha vida e me fez acreditar no meu ser errado. Nesse vômito que substitui a asfixia desde o dia em que nunca mais entrego ao mundo essas certezas de que acreditar é burrice dos amantes que amam sozinhos de olhos fechados. Pode pegar tudo, eu não preciso mais de artifícios para lembrar- essa consciência está pintada com tinta vermelha nas paredes d’alma.

Sem parágrafos:

Transitivo. Transitivo. A madrugada – eternamente insone – a dor na garganta e o corpo a 39 graus. Pensei nisso: transitivo, transitivo. Os cobertores mostrando-se tão ineficazes. Esse frio. Essa porra desse frio. (In)transitivo. Marco horas, em mim, e nessas horas sou: independente do passado futuro presente. Quando ela chegava. Passado. Na hora marcada ela sempre chega – mesmo que nessa realidade inventada – a porta abre e um beijo e o jantar está na panela. Esse cheiro de queimado há semanas vindo da cozinha. O amor queimou, estragou, virou carvão. Diz, baby, como deixamos as coisas chegarem a esse estado? Quando foi que me profetizei a ser sempre sozinha e duvidei de qualquer gesto de carinho? Você lia muito Augusto dos Anjos, a culpa é dele. Esses escarros e essas pedras? Tudo culpa dele.    É solidão. A febre é a falta de abraços, o meu ser transitivo. Tive tanta vergonha hoje desse sentir saudade e não tem coisa mais infernal do que sentir vergonha dos meus próprios olhares. Não tem mais ninguém – é solidão pura, é essa solidão devastadora que não me deixa em paz. Quis gritar que não tem nada não: pode voltar quando quiser porque em mim volta todas as noites. Não, não é isso. É a febre falando, baby, eu te odeio tanto. Desse ódio que faz companhia, desse ódio-amor. Não, também  não é isso. É a febre falando. É só a febre falando.

Baby,

Hoje não saí de casa. Inventei desculpas para não ir a aula e fiquei o dia inteiro em casa contando quantos cigarros ainda restavam no maço. Agora já é madrugada e tento retardar o último – ainda perdido dentro da minha bolsa. Nasceu em mim – do mesmo jeito que nasce todas as noites – uma vontade urgente de você. Tenho me mostrado tão previsível. Todas as noites por volta da mesma hora – duasequarentaeseis – algo grita em mim sobre essa necessidade que (ainda) tenho. Desligo computador, fecho as cortinas laranjas, coloco Damien Rice para tocar e me escondo no escuro dessa solidão que me engolfa. Há semanas essa é a minha rotina. Não arrumo a cama há dias, assim quando me deito apenas empurro as coisas para o lado e me encolho no espaço que consigo fazer surgir. Fico sempre no lado esquerdo e vezenquando faço algo cair no chão. Algumas roupas, o carregador do celular, Carne Trêmula, três sacolas de supermercado e a (nossa) gata. Escolho sempre as (mesmas) músicas mais calmas. Tudo tão metódico que já começo a chorar pela certeza do próximo refrão. Hoje pensei em te escrever. Contar dessas coisas que andam me acontecendo e que talvez você queira saber. (Deixa eu me enganar; por amor, me dê o presente da ilusão.) Escrevo calma pela certeza de que você não. Você essa imagem que criei sem rosto. Você apenas o sentimento ao qual me apego para não enlouquecer. Hoje li algo bonito e criei na minha cabeça um diálogo (monólogo!) baseado na minha necessidade pueril de mostrar as belezas do meu caminho a você e esperar pela sua reação e. Dizia sobre amores brutos e sexo sujo e a beleza que coexiste a dor. Ou algo parecido. Estou pensando em adotar outra gata. Acho que a Frida gostaria de ter uma companhia- e eu adoraria um pouco mais de barulho nessa casa que transborda do silêncio da maçaneta que não gira e do telefone que não toca. Amanhã vou visitar minha mãe e jurar que está tudo bem – que não tem com o que se preocupar. E não estarei mentindo. Veja, baby, eu estou bem. Mesmo nos momentos tristes em que inspiro e expiro e inspiro e expiro para conter as lágrimas… Mesmo nessas horas não posso dizer que estou mal. Sinto a sua falta e por vezes imagino se tomei a decisão certa. Sei que sim. Fiz o que tinha que ser feito. Mas ainda te amo. E não imagino que esse amor vá acabar. Lembra daquela tarde naquele parque em te disse acreditar que amores – verdadeiros – eram eternos? Era disso que estava falando, baby, você se eternizou em mim e não gastarei tempo nem tinta tentando negar. (Já gastei tanta vida na tentativa de encobrir verdades com teorias mirabolantes.) Fumo o último cigarro e me arrumo para deitar. A Frida já dorme no meu travesseiro e as cortinas já estão fechadas. Sinto-me plena porque dessa vez me permito ser eu e assumo esses sentires que você sempre julgou como exageros. Então, baby, era isso que eu tinha para te dizer. Não me precisa responder, nem ler. Nessa noite tive boca e dedos e sentimentos sinceros. Nessa noite tive você sentada ao meu lado de uma forma até mais real do que nas vezes que você dormia nessa cama atrás de mim. Você que transborda nessas linhas que me deram, por talvez meia hora, um pouco de paz.

Carta aos esquecidos:

Os dias passam por mim, Marie. Um depois do outro com uma fatia escura entre eles, dizem Noite. O tempo está quente e úmido. Há três noites chove, sempre na mesma hora. Tenho que fumar escondida sob as marquises do centro. Escondida da chuva? Também. Sinto que devo escrever. A Vida quer dizer, através dos meus dedos de unhas sujas, sobre as tristezas veladas que doem quietas e morrem mudas pela falta de boca. Sinto-me um pouco vivendo para fora de mim. Meu corpo um simulacro das batalhas que (não) luto. Imperfeito. A janela d’alma sempre fechada na tentativa de conter o que não pode ser contido. Faço museus invisíveis para os olhos cansados de não querer olhar. Guardo os gritos, os gozos, as faltas. Mantenho-os comigo apenas porque não consigo deles me desvencilhar. Tudo isso, Marie, é a tentativa de organizar em pastas metafóricas os bibelôs do passado ontem hoje amanhã. Sim. Amanhã foi passado. Abstenho-me de sustos (de Vida). Quero hoje negar minha condição humana. Posso por essa noite existir junto a você no mundo das idéias esquecidas?

O Passado:

 

“Ninguém se separa, Rímini. As pessoas se abandonam. Essa é a verdade, a verdade verdadeira. O amor pode até ser recíproco, mas o fim do amor não, nunca. Os siameses se separam. Mas não se separam, tampouco: porque sozinhos não conseguem. Um terceiro precisa separá-los: um cirurgião, que corta pelo meio o órgão ou o membro ou a membrana que os une com um bisturi e derrama sangue e na maioria das vezes, diga-se de passagem, mata, mata um deles, pelo menos, e condena o outro, o sobrevivente, a uma espécie de luto eterno, porque a parte do corpo pela qual estava unido ao outro fica sensibilizada e dói, dói sempre, e se encarrega de lembrá-lo, sempre, de que não está nem nunca vai estar completo, que isso que lhe tiraram nunca mais poderá ter de novo.”

Quem não disse que o amor não vai?

Esse deixar-se levar. As portas que não consigo fechar- por mais que tente, por mais que tente. Esse abrir da porta e os meus passos rápidos dados em incosciência-consciente do saber quem está chegando. Essa falta total de controle sobre o respirar da casa alheio a minha asfixia. Vivo em conversas de mim para mim & outros cujo rosto não me importo: nessa tentativa patética de auto afirmação. Quiçá se repitir a cada sentença uma (in)verdade ela passe a ser real e eu possa finalmente fechar portas e janelas e coração. (Coração batendo no peito e encontrando a ausência crônica de outrem disposto a abrir-se.) Essa mentira imensa que me contem por completo. A ausência crônica de sujeito determinado do qual sei o nome, o número do telefone e a inabilidade em devolver os presentes metafóricos que deixo a sua porta a cada manhã: morta de mim. Se eu estou caindo assim de maneira tão real que sou incapaz de transformar em metáfores e símiles. Se eu estou caindo nessa idéia de vertigem permanente da solidão. Se estou caindo e pego-me imaginando se pedir ajuda de algo vale. Se estou caindo… porque não me dás logo a mão?