Sem parágrafos:


Transitivo. Transitivo. A madrugada – eternamente insone – a dor na garganta e o corpo a 39 graus. Pensei nisso: transitivo, transitivo. Os cobertores mostrando-se tão ineficazes. Esse frio. Essa porra desse frio. (In)transitivo. Marco horas, em mim, e nessas horas sou: independente do passado futuro presente. Quando ela chegava. Passado. Na hora marcada ela sempre chega – mesmo que nessa realidade inventada – a porta abre e um beijo e o jantar está na panela. Esse cheiro de queimado há semanas vindo da cozinha. O amor queimou, estragou, virou carvão. Diz, baby, como deixamos as coisas chegarem a esse estado? Quando foi que me profetizei a ser sempre sozinha e duvidei de qualquer gesto de carinho? Você lia muito Augusto dos Anjos, a culpa é dele. Esses escarros e essas pedras? Tudo culpa dele.    É solidão. A febre é a falta de abraços, o meu ser transitivo. Tive tanta vergonha hoje desse sentir saudade e não tem coisa mais infernal do que sentir vergonha dos meus próprios olhares. Não tem mais ninguém – é solidão pura, é essa solidão devastadora que não me deixa em paz. Quis gritar que não tem nada não: pode voltar quando quiser porque em mim volta todas as noites. Não, não é isso. É a febre falando, baby, eu te odeio tanto. Desse ódio que faz companhia, desse ódio-amor. Não, também  não é isso. É a febre falando. É só a febre falando.

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