Flores de um longo inverno.

Eras então tudo o que eu nunca me permeti ser. Eras o existir para além das amarras frouxas que prende a Terra o que pertence aos céus. Eras todo o saber que neguei – esse pavor de Verdades. Eras tudo e eu presa ao meu nada te odiei por teres roubado de mim possibilidades que nunca me pertenceram. Sim, essa história não foi por mim vivida – estagnada na minha incompreensão do todo observei a vida desenrolando-se a minha frente como galhos de uma árvore; quando finalmente adquiri braços para colher os frutos era tarde demais, estavam todos podres.

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Leitura de sábado.

‘Aí sentei-me e chorei. A água suja, embaixo, me tentava constantemente: para que sofrer? O suicídio seduz por sua facilidade de aniquilação – em um segundo, todo este absurdo universo demorona como um gigantesco simulacro, como se a solidez de seus arranha-céus, de seus encouraçados, de seus tanques, de suas prisões, não fosse mais do que uma fantasmagoria, sem maior consistência que os arranha-céus, encouraçados, tanques e prisões.
A vida aparece à luz deste raciocínio como um vasto pesadelo, do qual, entretanto, a gente não se pode libertar com a morte, que seria, assim, uma espécie de despertar. Mas, despertar para onde? Essa irresolução de arrojar-me ao nada absoluto e eterno tem me detido em todos os projetos de suicídio. Apesar de tudo, o homem é tão apegado à existência que prefere finalmente suportar sua imperfeição e a dor causada pela sua hediondez a aniquilar a fantasmagoria com um ato de autodeterminação. E sói resultar também que, quando chegamos a fronteira do desespero que precede o suicídio, por haver esgotado o inventário de tudo quanto há de mal e haver chegado ao ponto em que o mal é insuperável, qualquer elemento bom, por menor que seja, adquire um desproporcionado valor, termina por fazer-se decisivo, e nos aferramos a ele como nos aferraríamos desesperadamente a qualquer ramo ante o perigo de rolarmos num abismo.’

O Túnel – Ernesto Sábato.

‘Words are dead.’

Por favor, coração, me salva dessa falta do que dizer. Sinto minha cabeça vazia e outrora disse sobre a falta de boca – hoje digo sobre a falta de som. A asfixia foi embora. Respiro normalmente. Talvez eu precise mesmo viver naquela constante quase morte.

Escrito na parede:

‘You don’t know what love is
Until you’ve learned the meaning of the blues.’ 

Vou falar baixo para não correr o risco de que outra pessoa a não ser você escute. Vou falar em sussuro e sem olhar para os seus olhos porque tenho tanto medo. Vou dizer rápido para não deixar que o meu medo de ser óbvia me faça calar antes que eu tenha jogado toda essa confusão no seu colo e dela não quero mais saber. Falarei então sem palavras e se esses pensamentos desconexos e tão repetitivos chegarem a você então é porque está mesmo escrito nas estrelas.
(Mas nós sabemos que não, não está.)