Go on.

Como, coração, se o amor é tão maior do que nós – te dizer que o que enxergas não é nada para o inteiro? Tu nunca entendeste mesmo. Nunca conseguiste olhar o mundo com a mesma fome. Nunca enxergaste que a compreensão do todo é maldição – e também dádiva.
Encolhi-me aos teus pés e chorei por tudo o que existiu entre nós e tu não enxergaste – olhando para a janela dessa casa sem paredes. Estampado nesse seu rosto lindo a sua incapacidade de entender dos tantos infinitos que cabem dentro de uma insônia. Continuaria viva no amanhã do qual agora te escrevo: mas, minha flor, o meu estar viva agora não diz nada sobre as mil vezes que morri desde que tu foste embora.
Mas não tem nada não. Vou te esperar. E se olhares com a devida atenção enxergarás que minh’alma mudou com as marcas das lágrimas que não cheguei a chorar. Ah, essas mudanças das multiplicações dos pedaços do meu coração. E você não enxerga. Nunca enxerga.
Mas não tem
mais nada não.

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Carta ao vento, sem fim:

O amor não acaba de repente, pequena. O fim nunca pega dois amantes de surpresa. Em uma tarde de verão quando você escolheu mentir e se perder de mim : o primeiro sintoma de outros tantos – desse câncer que corrói histórias de amor e lhes tira o impulso vital.
Olhei para além dos teus olhos, que por sua vez olhavam para o além de novas possibilidades de vida – vidas essas onde não havia espaço para mim. Mas eu sei, coração, que o câncer ja está  em estado avançado (e que você repudia tratamentos) . Abocanhou pensamentos de amor, vontades e desejos. Tudo o que um dia tornou-te minha foi removido de você  – corpos estranhos aniquilados através de cirurgias d’alma, as quais assisti apavorada a cada falta de briho nos seus olhos.
O teu grande erro é achar que minha paixão me impede de sentir o gosto apocalíptico nos teus beijos. Bato o cigarro no cinzeiro, olho para o escuro que devora e ouço o teu sonhar para além desse apartamento em Hiroshima.
Depois  de existir em tuas vaidades de mulher e deixar-te desgraçar as minhas numa promessa silenciosa de que meu corpo nunca mais encontraria-se depois de balançar-se nos saberes do teu. Isso ao que os outros em suas dádivas do não-saber chamam por fazer amor. Entre nós amor nunca foi feito – existiu em mim desde o primeiro choro fora do ventre, uma espécie de espera pelo todo e jamais contertar-se com metades.  Na ante sala da vida estávamos juntas num saber de luz.
No céu que transmuta-se de repente de azul para rosa e depois para um novo azul – o azul das faltas que só existem na noite: enxergo-te agora como um dia que terminou e que nunca voltará a acontecer.

Mil perdões.

Agora que a noite terminou de cair e da minha boca esse gosto amargo não saiu. Olharei para o escuro e lá te encontrei. Em cada ausência, de luz & vida, encontro algo que deixaste para trás. Na sua pressa em sair de mim esqueceste de me avisar. Essa fuga constante, não enxergas que foges apenas de ti? Quando desvias teus olhos dos meus o fazes somente para não ter que enxergar na minha íris manchada o seu rosto em pleno desamor. Tens, meu bem, vergonha da dor que causas. Não negues mais, não me finjas de louca – dentro de ti algo morto quer sair. Acendo um cigarro e n’outro parágrafo te direi que:
minhas promessas vãs te criaram como és. Essa fidelidade ao amor, que queima feito magma no meu peito, fez de mim uma falsa profeta. Esses dias eternos de convalescença tornaram-nos reféns do silêncio dos amantes que desviam o olhar. Tua totalidade não mais me pertence (quiçá as ilusões cessaram nesse outono de descobertas). Devolva minhas chaves e deixe na caixa de correio meu coração. Tornarei as coisas mais fáceis, dispararei a arma e pintarei meus olhos com a pólvora.