Carta ao vento, sem fim:


O amor não acaba de repente, pequena. O fim nunca pega dois amantes de surpresa. Em uma tarde de verão quando você escolheu mentir e se perder de mim : o primeiro sintoma de outros tantos – desse câncer que corrói histórias de amor e lhes tira o impulso vital.
Olhei para além dos teus olhos, que por sua vez olhavam para o além de novas possibilidades de vida – vidas essas onde não havia espaço para mim. Mas eu sei, coração, que o câncer ja está  em estado avançado (e que você repudia tratamentos) . Abocanhou pensamentos de amor, vontades e desejos. Tudo o que um dia tornou-te minha foi removido de você  – corpos estranhos aniquilados através de cirurgias d’alma, as quais assisti apavorada a cada falta de briho nos seus olhos.
O teu grande erro é achar que minha paixão me impede de sentir o gosto apocalíptico nos teus beijos. Bato o cigarro no cinzeiro, olho para o escuro que devora e ouço o teu sonhar para além desse apartamento em Hiroshima.
Depois  de existir em tuas vaidades de mulher e deixar-te desgraçar as minhas numa promessa silenciosa de que meu corpo nunca mais encontraria-se depois de balançar-se nos saberes do teu. Isso ao que os outros em suas dádivas do não-saber chamam por fazer amor. Entre nós amor nunca foi feito – existiu em mim desde o primeiro choro fora do ventre, uma espécie de espera pelo todo e jamais contertar-se com metades.  Na ante sala da vida estávamos juntas num saber de luz.
No céu que transmuta-se de repente de azul para rosa e depois para um novo azul – o azul das faltas que só existem na noite: enxergo-te agora como um dia que terminou e que nunca voltará a acontecer.

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