Petit mort.

Quantos sábados perdidos em lembranças insignificantes. Enquanto enrolas nos teus dedos rápidos promessas de amor regadas a vinho. Comovente é a saudade. Nem a fome, nem a falta de cigarro ou mesmo o frio- nada me coloca mais comovida quanto a saudade dos teus abraços quentes. Cinco minutos da tua ausência fodendo com a sanidade pouca que sobreviveu aos cinco minutos do teu percurso quarto-sala-porta. Você é a sombra que agora observa-me das árvores além da janela. Você é a chuva. No caos que instalou-se no meu apartamento perco-me no caminho automático até a cozinha e vejo-me na varanda fria e chuvosa. Se é a chuva então abro a boca e engulo a tua matéria gelada. Se é a sombra viro-me para a parede e sou apenas os contornos escuros. Não era para ter acontecido dessa forma. Mas de repente veio a fome, a chuva e o frio. De repente veio a solidão acompanhada pela banda que descobri e que canta a tua falta de direito em foder assim com os dias que em mim deveriam ser libertadores. Não era para ter acontecido dessa forma, mas foi exatamente assim que aconteceu. Comovida como o diabo encaro as noites frias & chuvosas que desenrolam-se a minha frente. Até que.

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2046.

O homem morto na sala de jantar transcendeu a música. Enquanto nos relógios os minutos passam de eternidade em eternidade. Enquanto eu fumo cigarros imaginários pela carteira vazia & garganta inflamada. Enquanto a existência me toma toda a força e pequenas mortes enchem o cinzeiro vazio de cinzas.  O cheiro do incenso de rosas chega as minhas narinas como um lembrete de que arrumei a casa e lavei as roupas. Sentada na cama do meu fracasso há cinco horas, trinta infinitos e duas mortes espero que a porta se abra e fecho-me no vazio dessa existência rala.
(As palavras molhadas e perdidas, no deixá-las na janela e: chuva.)