Carta, parte 1.

Antes de mais nada preciso dizer que não julgo-me única. Já vivi o suficiente para saber que a dor está em todos e para todos. Não há razão para perder-me em perguntas sobre como a vida me foi assim tão cruel. A vida é. As pessoas são. Tudo sobre o qual escreverei já aconteceu antes e acontecerá de novo – a roda viva que repete e repete e.
Então não desperdice seus argumentos dizendo sobre a minha capacidade de transformar o pequeno em grande. Já digo agora que a diferença entre tudo e nada te escapa pelos dedos. Não abra também a boca para enumerar as vezes que te concedi o perdão e trai minhas palavras  – nada entendes de perdão e nunca ouviste minhas palavras. Contenha-se nas reclamações sobre as metáforas que não entendes – se tivesse aberto os tantos livros que te dei talvez hoje compreendesses o epitáfio que presenteio ao nosso amor natimorto.
Não te desejo o melhor, querida. Desejo-te a mesma dor e tristeza que a mim inflingiste. Desejo-te as trevas. E não ouses me chamar por mesquinha ou má. Nunca fui simpatizante de pessoas superiores. Sou feita da mesma carne que a tua e sou capaz do mesmo ódio. Concedo-lhe assim meus votos de cólera.

I’m not sorry there’s nothing to save.

Aconteceu. Os anos passaram por mim, lentos e metódicos. As manhãs, as tardes & noites vividas na mesma falta de pressa- e com a mesma urgência. A mesma tristeza. Os mesmos sorrisos. A tal falta que incorporou-se a mim desde o ano cinco. Era para teres me salvado de mim mesma- hoje não mais iria contigo ao inferno. Entendes desse inferno? Ele nasce e morre na mesma sentença de vida; deverias saber disso, deverias. O amanhecer, a gata, os cigarros, a pizza gelada e o amor diminuto.
Aconteceu,
meu bem,
e ninguém percebeu que a vida nos engoliu pela nossa própria falta de fome.