Carta, parte 1.


Antes de mais nada preciso dizer que não julgo-me única. Já vivi o suficiente para saber que a dor está em todos e para todos. Não há razão para perder-me em perguntas sobre como a vida me foi assim tão cruel. A vida é. As pessoas são. Tudo sobre o qual escreverei já aconteceu antes e acontecerá de novo – a roda viva que repete e repete e.
Então não desperdice seus argumentos dizendo sobre a minha capacidade de transformar o pequeno em grande. Já digo agora que a diferença entre tudo e nada te escapa pelos dedos. Não abra também a boca para enumerar as vezes que te concedi o perdão e trai minhas palavras  – nada entendes de perdão e nunca ouviste minhas palavras. Contenha-se nas reclamações sobre as metáforas que não entendes – se tivesse aberto os tantos livros que te dei talvez hoje compreendesses o epitáfio que presenteio ao nosso amor natimorto.
Não te desejo o melhor, querida. Desejo-te a mesma dor e tristeza que a mim inflingiste. Desejo-te as trevas. E não ouses me chamar por mesquinha ou má. Nunca fui simpatizante de pessoas superiores. Sou feita da mesma carne que a tua e sou capaz do mesmo ódio. Concedo-lhe assim meus votos de cólera.

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2 comentários sobre “Carta, parte 1.

  1. tenho até medo de te ler. medo de cair no teu mundo, de me perder em encantamentos e não receber um olhar de volta. tenho medo, mas te leio, te vejo, te admiro de longe. queria estar perto, bem perto de ti e te oferecer o colo que não tens desse mundo rude. um dia talvez eu esteja.garota, te sinto escritora.beijos.

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