A ânsia de sapatos.

Enquanto andava sobre o asfalto quente e sentia na sola dos pés as bolhas começarem a se formar. Enquanto a dor devorava os passos e a ânsia de sapatos embalava os pensamentos sonolentos. Era meio dia no relógio da igreja e Deus nada tinha a ver com os chinelos esquecidos na casa dela. Ainda menos podia ser envolvido, esse Deus que dá as horas no relógio da igreja da praça central, com a manhã acordada em supetão com o relógio, que carregamos todos n’alma, e que avisava ensurdecedoramente que já era tarde.
Os cristãos acreditam que a dor pode ser sublimada quando em virtude de um objetivo maior. As bolhas pareciam um pequeno preço a se pagar para que chegasse em tempo. (Mentalmente anotava que deveria guardar seus sapatos no armário quando chegasse em casa, mais antiga que a memória de se calçar era a memória de perder os sapatos.)
As ruas desenhavam-se em linhas interligadas todas no mesmo objetivo: o de chegar. O cheiro de café fresco lembrou-lhe do estômago vazio que murmurava a música da fome. ‘Sem tempo para alimentar o corpo, o corpo, o corpo.’ O centro ficava para trás e os pés atingiam o momento em que a dor transmuta-se em só mais um pequeno obstáculo no caminho para lá.
‘Todos andando tão calmos. Não sabem, eles certamente não sabem. Morrendo de tempo enquanto a vida clama pela pressa de começar. Eles não entendem, certamente não entendem. Ainda não foram avisados que esperar não é viver – e que correr para o mundo é só outra maneira de correr de si.’
Certo em sua ânsia de chegar andou por três infinitos de dias em que o sol e a lua, pouco a pouco, foram também ficando para trás. Do que era levou apenas a pressa. E o que encontrou foi o inferno de saber-se por inteiro.

A madrugada. (Ou: ainda é cedo, amor.)

Não. Levo apenas as portas e janelas fechadas. Dos anos que (me) passaram acolhi apenas o que me marcou a pele. Somos condicionados a colecionar derrotas. Sobrevivi aos dias de tristeza profunda e as noites de cólera  para que agora possa te contar que.

Mas 03h56.  Dessa coleção de pequenas mortes, meu bem, preciso me livrar. Antes que eu morra de vida.

Deixa chover.

“Tudo se encaminha para o final, no cenário, um final apropriado. Por toda parte, imperceptivelmente ou não, as coisas estão passando, acabando, indo embora. E haverá outros verões, outros espetáculos de bandas, mas aquele ali, nunca mais, nunca mais como agora. No próximo ano eu não serei a pessoa que sou este ano. E por isso dou risada do que é passageiro, efêmero; rio enquanto seguro carinhosamente, como um tolo segura seu brinquedo, o copo rachado pelo qual a água escorre entre meus dedos. Apesar de toda a literatura, de todas as invenções de meios para expressar e transmitir e registrar a vida, é a vida que há nisso tudo que é o truque. Ela passa, apesar dos sonhos que você usa para anestesiar as dores e mágoas, ela vai embora. Iluda-se com ilhas impressas de permanência. Você só tem o tempo de uma vida. Está conseguindo realizar o seu sonho. As coisas estão funcionando, forças cegas, mas nenhuma força pessoal espiritual beneficente exceto seu própria inteligência e a boa vontade de alguns poucos malucos seus semelhantes. Aproveite enquanto é tempo.”

D’Os diários de Sylvia Plath.

Vertigo.

Quanto tempo faz que eu te vi pela última vez? Só queria te dizer que ando tão feliz. Não pretendo entregar-me a mesquinhez de ex amantes que desdenham os dias nos quais acreditaram na eternidade a dois. Não usaria a felicidade como arma de vingança (dói em mim a consciência da fugacidade do todo). Nem ao menos sinto que felicidade seja a palavra correta para descrever a paz que apoderou-se do meu vazio: ao me perder de ti encontrei em mim uma força que só foi possível pelo mesmo motivo que permite ao sol nascer depois da lua se proclamar eterna.
Busco a ti do mesmo modo que outros buscam ao céu escuro em uma noite de desespero e narram ao Nada o que lhes aflinge- e a mais ninguém. Pelos telhados e poluição, busco alternativas para o Nada. O silêncio absoluto me traz você.
A pele, olhada muito de perto, não é contínua. A fragmentação do Todo. Estou certa de que isso algo tem a ver com a paz – que não, não é felicidade.
Luto para não te diminuir. Hoje, depois de quanto tempo mesmo?, enxergo as falhas fatais no meu discurso. Ao te dizer incapaz de entender a complexidade do ser esqueci que o que não existe em nossa realidade é, para nós, impossível.
Em nossa impossibilidade nasceu a ilusão do amor. Imagino-te agora torcendo o nariz para essa afirmação. Digo ainda que todos os amores o são. A beleza da ilusão é que nela não há limites. No nosso amor ilusório o encontro entre nossos impossíveis tornou-se real. E, porque acreditamos, ele o foi.

22:09

Um quarto. O vazio que dói dentro da cabeça oca. De súbito enxergo a  imagem do meu (constante) fracasso. Pela noite que adentra o quarto a vontade que engolfou-me foi a de me abraçar e chamar por Deus. Lembrei do ateísmo de meu pai e de como em seus últimos anos a descrença no homem o levou a acreditar n’Ele. No barulho da chuva não O encontrei; em meus dedos cruzados em minhas costas as únicas epifanias envolveram solidão & sabotagem. Chamei pela força que supus existir dentro de mim. Pedi por ajuda as outras que outrora fui e que quase-mortas me servem de deuses quando a chuva pontua os minutos que.
Sem respostas. Apenas o respirar daquela que, menor que eu e Ele, destroça as minhas crenças;  em mim e n’Ele. Acreditando em pequenas coisas perdi a capacidade de enxergar o grande, e nele me salvar. Da determinação sobraram apenas duas coisas nas quais não devo acreditar. Do dia sobram duas horas que, perigosas, instigam em mim a vontade de ser mais do que apenas isso. Um quarto.