Hiato.

Se há o sol, se há o vento frio, se há a chuva que ajuda-me a lembrar do breu depois que roubaram-me uma hora, duas vidas e sete oportunidades.

O que aconteceu, fugindo de metáforas & símiles: tornei-me leve e perdi as palavras.

O dia que demora tanto a acabar me tirou a escuridão. Ou: o amor que demora tanto a cessar me presentiou a calma dos dias que não acabam.

(Acabando-me em tudo que não literatura).

Distância.

Ao seu famigerado discurso, com a cautela de não pensar as palavras e fazê-las perder o pedaço d’alma que me roubam ao sair, direi que: não há a extensão no outro. Quando dizes essas cousas sobre a transcêndencia da paixão carnal urge em mim a vontade primitiva de quebrar-lhe a cara (e colocar fim ao teu  sorriso bobo).
Se desde o começo tudo o que existiu foi fogo & urgência,  agora não são possíveis discursos sobre a normalidade do frio que assolou os nossos espaços. No meu corpo, perdido de ti há meses, nada há que não o silêncio. Abismal vazio que nasceu do nosso parto ao avesso: as mazelas do mundo enfiei ventre a dentro para poder saber-me menos oca.
Se dormes então não ouves os gritos que preciso coroar-te os ouvidos. Do tempo curto de uma vida não posso levar tão pouco amor – do tempo curto de um amor não posso levar tão pouca vida.