4:

Silêncio. Silêncio. Silêncio. Tudo o que restou foi o silêncio. O abismo da existência é esse. Não tentes colocar suas palavras eruditas onde só cabem meus erros de concordância. Éramos eu – sou tantas. Dia após dia após dia. A minha verdade sempre foi o silêncio. Ouve os teus barulhos, preste atenção ao que o teu corpo diz, deixe a boca fechada e apenas escute, escute e? Os barulhos dizem tanto sobre alguém

e eu sempre fui a falta.

Carta às (in)Sônias:

É tudo muito bonito. É tudo tão bonito que. O quê? Quando observo essas coisas todas, essa vida toda, esses amores da carne, esses suspiros. Quando enxergo a beleza dessa vida-fascinação-indelével tudo o que consigo é olhar para dentro desse corpo que estranho como sendo meu – e é tão triste. Minha carne é triste marcada açoitada pelo tempo que ainda não passou. Mas foram décadas séculos milênios em que estive aqui antes de me saber. Antes de ser sua eu já perambulava pelos cantos do universo nessa busca incansável por algo que se assemelhe a idéia que tenho de mim. Isso é brutal, entende? Não reconhecer-se na imagem que o Mundo tem como sendo sua. Estranha a mim. Sempre tentando achar algo familiar entre pele cabelo dentes e desenhos. Acha que estou ficando louca? Foram tantos dias trancada entre doentes. Eu me reconhecia neles, já te disse isso? Sempre me reconheci na loucura. Foi o meu pai que me fez isso. Niezstche, Augusto dos Anjos, Antonin Artaud. Foram tantos estragando a minha época de balanços e cirandas. Acha que eu estou ficando louca? Diz logo para que eu possa ir embora e reconhecer-me em algum rótulo qualquer. Mas não vou embora. Você sabe disso. Vinte anos dizendo que irei embora. Vinte anos permanecendo.       (Em mim).

Página 20:

“Engolia o corpo de Deus a cada mês, não como quem engole ervilhas ou roscas ou sabres, engolia o corpo de Deus como quem sabe que engole o Mais, o Todo, o Incomensurável, por não acreditar na finitude me perdia no absoluto infinito

te deita, te abre, finge que não quer mas quer, me dá tua mão, te toca, vê? está toda molhada, então Hillé, abre, me abraça, me agrada

Engolia o corpo de Deus, devo continuar engolia porque acreditava, mas nem porisso compreendia, olhava o porco-mundo e pensava: Aquele nada tem a ver com isso, Este aqui dentro nada tem a ver com isso, Este, O Luminoso, O Vívido, O Nome, engolia fundo, salivosa lambendo e pedia: que eu possa compreender, só isso. Só isso, Senhora D? Compreender o jogo brinquedo do Menino Louco, pensa um pouco, Hillé, pensa no sinistro lazer de uma criança louca, ou pensa em crianças brincando com gatinhos, com ratos, com tristes cadelas vadias, ó vinde a mim as criancinhas, que sabemos nós de criancinhas? Como pôde dizer isso, ele que dizia que muito sabia?”

8:

Essas paredes brancas, ela disse, a culpa é dessas paredes brancas. Elas nos cobram uma serenidade que jamais nos seria possível. Sempre me senti estranha a essa calmaria toda; perto de tanta brisa tornei-me ainda mais tempestade.

O corredor. O corredor de todos os dias. As escadas. Um, dois, três e vinte e cinco. Alcanço a rua. Tropeço na tarde chuvosa. Escorrego na vida encharcada de transitividades. O que vem antes, a chuva ou a tristeza? Tudo o que (nos) restou foi a lama. Só a lama e a ausência:

tempestade.

2:

A ausência assolou nossos espaços. Mesmo quando éramos um, mesmo quando confudia meu corpo de mulher com o teu corpo de homem. Nosso amor nada foi que não uma sucessão de despedidas. Nossas manhãs nunca foram dias que começavam, tão presos estávamos ao luto pela noite que se foi.

Nada existe na vida mais íntimo do que isso: compartilhar silêncios.