Página 208:

‘Nunca consegui encontrar o campo de travagem da tristeza. Morri muito para não morrer. Na tristeza encontro ainda o bafo reconfortante da vida. Já não sei o que é ter frio, nem calor, nem dor – mas permaneço triste, por isso existo. Preciso trabalhar as tintas das minhas mortais tristezas para atingir uma melancolia abstracta. Preciso que essa abstracção te preencha os poros – preciso te habitar, te moldar, barroco coração cubista. A tristeza impede-me de acabar de morrer – toma, dou-ta, ajusta ao teu sangue o pudor impudico do que fui. Que te lembres dos meus contornos claros, não chega – toma o lixo infantil que não te dei, as lágrimas  manchadas pela dedadas do meu coração de chocolate. Come-as, deixa-me morrer dentro de ti – deixa-me escolher morrer dentro de ti, porque só essa morte me falta.’

Anúncios

Memória.


É uma pequena coleção de pedaços. Do quê? É uma pequena coleção do que me fez em pedaços. Em que? São objetos que esqueceram aqui. Cinco isqueiros, dois livros e um caderno. Já não me lembro mais das pessoas, elas se foram há tanto tempo. O que restou foi o esquecimento. Somos o que deixamos para trás. É isso? Não, é pior: somos quem esquecemos.

(…)

-Mas diga-me, afinal, já nos vimos antes?

Estante:

Já que hoje achei esse filme no fundo da gaveta:

Are you desirable? Are you irresistable? Maybe if you drank bourbon with me, it would help. Maybe if you kissed me and I could taste the sting in your mouth it would help. If you drank bourbon with me naked. If you smelled of bourbon as you fucked me, it would help. It would increase my esteem for you. If you poured bourbon onto your naked body and said to me “drink this”. If you spread your legs and you had bourbon dripping from your breasts and your pussy and said “drink here” then I could fall in love with you. Because then I would have a purpose. To clean you up and that, that would prove that I’m worth something. I’d lick you clean so that you could go away and fuck someone else.

(Leaving Las Vegas)

Moleskine:

Boa noite. Três e quarenta e dois da madrugada e eu hoje havia prometido a mim mesma que dormiria cedo.

É.

É esse o problema com promessas: não contamos com o tempo que nos devorará antes de termos a chance de cumprí-las.