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‘Nunca consegui encontrar o campo de travagem da tristeza. Morri muito para não morrer. Na tristeza encontro ainda o bafo reconfortante da vida. Já não sei o que é ter frio, nem calor, nem dor – mas permaneço triste, por isso existo. Preciso trabalhar as tintas das minhas mortais tristezas para atingir uma melancolia abstracta. Preciso que essa abstracção te preencha os poros – preciso te habitar, te moldar, barroco coração cubista. A tristeza impede-me de acabar de morrer – toma, dou-ta, ajusta ao teu sangue o pudor impudico do que fui. Que te lembres dos meus contornos claros, não chega – toma o lixo infantil que não te dei, as lágrimas  manchadas pela dedadas do meu coração de chocolate. Come-as, deixa-me morrer dentro de ti – deixa-me escolher morrer dentro de ti, porque só essa morte me falta.’

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