Carta.

Se da flor restou agora apenas a água suja do vaso. A grande animalidade de nós dois. Apodrecidos e secos. É na morte que se justifica a vida. Da vida tanta e tamanha que nos escapou pelos dedos. Era a água, não vês? A água suja do vaso de quando acreditávamos que tudo isso tinha algum valor. Humor cruel das manhãs que iam e vinham como se zombassem das cortinas. Os dias fustigando-me com horas intermináveis de vazio. Tento segurar a água-lembrança, mas meus dedos são lentos demais. Quando de ti meu corpo não sabia as horas doiam menos; e a vida doia mais. São esses espaços no meu corpo que ainda guardam pedaços de ti. Se acho um nó em meus cabelos sei que em em mim tu tens moradia. Porque da vida é tão fácil falar. E o amor não tem nada de vida – o mais perto que podemos chegar do abismo:

abismo dos seus olhos nos meus.
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4:48

Chovia quando alguém me disse que eu um dia deixaria de me enxergar nessas linhas. Era setembro e a felicidade não estava nos meus planos:

“I beg you to save me from this madness that eats me

a sub-intentional death.

I thought that I should never speak again

but now I know that there is something blacker than desire

perhaps it will save me

perhaps it will kill me.”