A náusea.

 

“(…) Se existíamos, era preciso existir a podridão, a dilatação, a obscenidade. Em outro mundo círculos e árias de música mantêm linhas puras e fixas. Mas a existência nos atinge. Somos existentes incomodados, envergonhados de nós mesmos, sem razão de ser, todos nós existentes confusos, meio inquietos, como se fossemos demais e incomodássemos. Demais: é a única ligação que estabeleço entre as árvores, as grades, as pedras. E eu, lânguido, obsceno, acalentando pensamentos tristes, eu também era demais. As árvores flutuavam em direção aos céus. Eu esperava que, a qualquer momento, seus troncos cansados se dobrassem até o chão e virassem uma massa só. Elas não queriam existir, mas não podiam fazer nada quanto a isso. Tinham que continuar; a seiva circulava a contragosto, lentamente as raízes entravam na terra. Mas elas pareciam que iriam largar tudo e se aniquilar. Cansadas e velhas, as árvores continuavam a existirem de má vontade por serem fracas demais para morrer, porque a morte só poderia vir do exterior. Só acordes de música podem trazer orgulhosamente a morte em si mesmos como uma necessidade intrínseca. Tudo o que existe nasce sem motivo, se prolonga por fraqueza e tem um encontro com a morte. O essencial é a contingência. Por definição, a existência não é necessária. Existir é apenas ‘estar lá’. Os existentes aparecem, se deixam encontrar, mas não se pode nunca deduzi-los. Tudo é gratuito: este jardim, esta cidade e eu próprio. Quando a gente se dá conta disso o coração fica pesado e tudo começa a rodar. Fiquei no banco, perplexo, achatado por essa profusão de seres sem origem. Por toda parte, desabrochamentos. Minhas orelhas fervilhavam de existência. Minha própria carne palpitava, pulsava e se abandonava à germinação universal. Era repugnante.”

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