Ginnungagap, querido, Ginnungagap perpetuando-se nessa cidade na qual a beleza só existe se seguires sempre olhando para cima. O topo dos prédios, o céu, a copa das arvóres, os pássaros do centro da cidade, as lâmpadas ao redor do mercado municipal, aquele pôr-do-sol que quase nos arrancou um sorriso. Há algo de triste nessa cidade estéril que não vai embora nem com a chuva. Os olhos se cansam e a poesia toda some. São apenas prédios feios, árvores mortas, pássaros sujos, lâmpadas quebradas e o sol e o calor e eu e você e a fuga.
(Na mitologia nórdica, Ginnungagap era a imensidão, o vazio primordial que existiu antes da criação do univero. A partir dele surgiram os reinos do Gelo e do Fogo, cada um em um extremo de Ginnungagap.)
O inverno triste desse ano me fez pensar nessa miudezas. Quando era criança passava tardes sozinha na biblioteca tendando arrancar algum sentido dos livros russos do meu pai. A Rússia, os deuses nórdicos, a tristeza ridícula e profunda por esse inverno quente.
Fomos criados a partir do vazio. A teoria criacionista da tristeza: caminhamos com a lembrança de quando éramos o Nada.
Vamos morar nas montanhas e sujar as mãos com frutas geladas. Foram nove meses de espera e ele nem sequer chegou.

Para passar a existir era preciso esse vazio, essa cidade, esse buraco. Vamos morar nas montanhas e esquecer Ginnungagap.

Adeus.

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