A viagem.

O ônibus andava rápido, silencioso e mortal. Estou voltando para casa e essa viagem durará uma vida inteira. O céu começava a escurecer e os tons alaranjados daquela cor só possível em grandes cidades se profetizavam infernais. Estou voltando para casa e não sei o que me espera.
Poucos sabem quantas mortes cabem em cada noite não dormida. Naquele ônibus, por exemplo, era possível apontar que apenas eu sentia o silêncio abismal que caia lento sobre as poltronas. Era possível ver, também, que a cada quilômetro andado algo em mim se partia de novo e de novo e de.
Sempre tive uma maneira particular de lidar com os sentimentos que não suporto sentir. Começo a contar os segundos que passam até eles formarem minutos e os minutos até formarem horas. Tento me perder em números para não me perder em mim.
A viagem durará três horas se nada der errado, me disse o vendedor do guichê da companhia de ônibus. Não sabia ele que tudo já havia dado errado de todas as formas possíveis. A mulher da banca de jornal sorria ao me dar o maço de cigarros. O funcionário encarregado de etiquetar as malas me desejou boa viagem depois de jogar sem cuidado a minha mala no fundo do bagageiro. O mundo sorri, deseja e promete. O mundo existe para além da minha total desgraça.
As palavras faziam um vai-e-vem infernal na minha cabeça. Um, dois, três, quatro. A capacidade de jogar tudo fora assim, sem nenhum cuidado, não me deixava dormir. Quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete, quarenta e oito. Há anos eu não acreditava mais na minha promessa de morrer de amor. Não vou morrer, vou continuar e seguir com a minha vida. Mas não morrer não significa continuar viva. Poucos sabem quantas mortes cabem em cada noite não dormida.
A cidade que marcava o meio do meu percurso passou pela minha janela rapidamente. O meu choro continuava contínuo e o meu medo da minha tristeza incomodar alguém crescia.
Os números não pareciam fazer efeito. Duas horas inteiras contando os segundos que passavam e de repente os números perderam totalmente seu significado. Esse estranhamento que sempre senti em relação ao mundo.
A minha outra mania para lidar com os sentimentos sempre foi dizer, repetidamente como uma espécie de mantra, que tudo vai ficar bem. Tudo vai dar certo, tudo vai dar certo, tudo vai dar certo.
Três horas passadas. Dez mil e oitocentos segundos contados. Cheguei em casa. Mas essa casa não é mais minha. Eu não pertenço mais a essa ilha, a esse mar, a esse apartamento no quinto andar.
Tudo deu certo, meu bem. A tempestade passou e a viagem de volta foi rápida e sem números.
Tudo deu certo, mas aquela noite me assombrará pelo resto da minha vida.