Fantasma.

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Pensando em qual o poder que as lembranças tem na nossa percepção da realidade, deparei-me com a descrição de Ambroise Paré para o fenômeno da dor do membro fantasma:
“Na verdade é uma coisa maravilhosamente estranha e prodigiosa, que seria difícil acreditar (salvo por aqueles que a viram com seus próprios olhos e a ouviram com os seus próprios ouvidos), que os pacientes se queixem amargamente, vários meses após a amputação, de ainda sentirem uma dor excessivamente forte no membro já amputado.”
A dor independe da proximidade e da coerência. Sua existência está condicionada somente a forma pela qual enxergo o que aconteceu. O que aconteceu não existe, o que existe é o que isso me causou. A minha perna nunca existiu e mesmo assim tudo que me resta agora é a falta. Nós nunca existimos e as lembranças do que não fomos fazem um vai-e-vem infernal na minha cabeça.
A vida, as pessoas, o mundo que me cerca e me esmaga: nada disso jamais existiu e jamais existirá a menos que seus significados cheguem a minha compreensão.
Eu nunca te entendi. Aceitei seus sistemas de vida e morte da forma que eles foram mostrados a mim. Aceitei a sua existência e a partir desse momento você passou a sempre existir. Você sempre esteve ao meu lado. Nascemos, crescemos e morremos juntos. O começo não existe. Não existe parâmetro de comparação dessa vida impregnada de você com aquela que levei até o dia em que te encontrei. O dia em que te encontrei não existe porque o momento antes desse encontro desapareceu. Você sempre esteve aqui. E a vida, essa sucessão de total intimidade e completo desconhecimento, não voltará a ser a mesma. Você sempre esteve aqui até aquela quinta-feira em que você desapareceu. E o seu desaparecimento se desenrola como um processo de morte e esquecimento. Você me dói. Você me dói e você não existe. Você me dói como doem as coisas que nunca existiram.

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O ato de desaparecer completamente.

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Eu estou desaparecendo. Há pouco mais de duas semanas atrás, quando você foi embora, eu comecei a desaparecer. É uma sensação estranha e não me lembro de já tê-la experienciado. É algo imperceptível aos olhos. As pessoas que passam por mim, as pessoas que param por mim, as pessoas que. Ninguém nota. Ninguém vê. É um trabalho pessoal e intransferível o de desaparecer. Todas as manhãs ao me levantar – depois de respirar fundo e amaldiçoar o sol, o amanhecer e as cortinas – eu começo a examinar o meu corpo. As unhas vermelhas, os cabelos despenteados, os olhos que de tão molhados ficaram secos. Tudo está no mesmo lugar em que sempre esteve. Tudo permanece assustadoramente igual. Só o que pode ser notado é o desvanecimento das cores. É a minha pele que está se transformando junto com o fundo sobre o qual ela é observada. São os cabelos que perdem-se ao toque e não é possível distingui-los dos meus dedos trêmulos. Pouco a pouco, durante as últimas semanas, eu tenho me fundido com o meio. As cores e formas do mundo que me rodeia estão tornando-se minhas, eu que nunca fui de possuir coisa alguma. As cores e formas que sempre me definiram estão sendo extintas. É um trabalho meticuloso o de desaparecer. Posso estar me tornando o meio, mas nunca na minha vida estive tão longe dele. Em pouco tempo já não mais estarei aqui. Ensaio a minha transparência sempre que tento chegar até perto de você. Você já não me enxerga. Você já não me enxerga. Você já não me enxerga. E se você já não me enxerga ser vista parou de fazer sentido. Se aos seus olhos eu já não existo desaparecer seria a única consequência possível. Nos seus olhos onde morei, nos seus olhos onde a vida tornou-se bela, nos seus olhos nunca mais. Não escolhi o desaparecimento, ninguém o escolhe. Eu te expliquei algumas vezes que depois de entrar você não poderia jamais partir. Eu te expliquei e você concordou. Você concordou. Mas a vida nunca foi justa para pessoas como eu. O desaparecimento sempre foi a minha única saída. Mesmo sem saber eu sempre soube que um dia existir ficaria difícil demais. E eu sempre te soube como o amor da minha vida. O grande amor da minha vida. O único amor da minha vida. E não há nada mais triste do que essa saudade de ser vista por você. Não há nada mais desolador do que lembrar dos dias em que você olhava o meu rosto e me enxergava. Você me enxergava de uma forma brutal. E no ato de ser enxergada por você eu encontrei o amor. Você me via e eu nunca tinha sido vista antes. No começo tive medo de desaparecer. Tive medo por pensar que um dia a sua cegueira pudesse passar e que quando os seus olhos saissem a busca dos meus não encontrariam nada além da minha ausência. Mas todos sabem que os mortos não voltam. No dia em que você foi embora, abriu aquela porta, desceu por aquele elevador eu já estava morta. Não é por maldade que você não me enxerga, isso não foi uma opção sua. Os vivos nunca puderam enxergar os mortos e essa ordem não será abalada por uma história de amor. O medo, então, foi embora. A pior parte passou. Respiro com calma porque sei que desaparecer para o mundo jamais será tão difícil quanto desaparecer para você. Nada nunca será tão difícil quando te ver partir. Por isso, meu amor, eu não posso correr o risco de ficar. Levarei sempre comigo os seus olhos que um dia tiveram como única função me olhar – e que jamais voltarão a existir, perdidos que estão nesse não-lugar para onde vão as coisas que foram deixadas para trás.

02:34:

A cidade toda brilha. O Natal chegou tão rápido esse ano. As ruas piscam em verde & vermelho. No jardim da casa ao lado, um pinheiro coberto por neve artificial. Todos os pinheiros dessa rua cobrem-se de mentiras para suportar o passar das horas. Um mendigo joga o resto de cerveja no cachorro que late ao o ver passar. Filho da puta, quem pensa que é? Vou dizer a ele que. Silêncio. Sempre a mesma rotina. Cumprimento o porteiro: que calor insuportável o de hoje, hã? Acho que irei a praia nesse verão. Nunca vou. Atravesso a rua. O vendedor de cachorro quente fala algo que eu não entendo. Porque ele fala desse jeito? Nunca consigo entender sequer uma palavra. Compro cigarros. Pago as contas. Sento na praia e olho o mar. Imensidão azul. As ondas avançam na minha direção. Fico parada. Quase. Quase. Porque não me deixo ser engolida pela força das ondas? Venham, devorem-me. Não é do mar que tenho medo, é do desconhecido que poderia me destruir. Destrua-me logo então, o que está esperando? Procuro pelo isqueiro nos bolsos cheios de papéis insignificantes. Cartas. Listas. Notas fiscais. Os bolsos cheios da mais destrutiva rotina. Acendo o cigarro. Caminho em direção ao mar. Perto. Cada vez mais perto. Porém nunca perto o suficiente. A distância perfeita para sentir o medo e me resignar do pavor. Não. Não é a força das ondas que eu temo, é o silêncio. No fundo do mar não há nada além disso: destruição & silêncio. Se eu desse mais um passo. E se depois disso continuasse em frente. Se o vento cobrisse meus olhos de areia. Se eu mergulhasse. Devore-me. Destrua-me. O que eu temo. O que eu te amo. Uma letra entre o amor e o medo. Vamos, destrua-me. Agora. Agora! Só o silêncio. Destruição & silêncio.

Não. Não é o mar que eu temo. É a eterna existência da praia.