Postal.

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Foi uma vida inteira escrevendo cartas de amor. Mesmo quando cartas de amor já haviam se tornado obsoletas. Mesmo quando o destinatário era tão vazio quanto o remetente. Mesmo quando não existia amor. Até que chegou um tempo onde não havia mais espaço para elas. A casa havia se transformado em uma espécie de correio triste. Ocupando todos os espaços estavam as cartas feitas para chegar e presas nessa transitividade sem objeto. Objeto que nunca ficou claro. Ou nunca existiu. O importante era a saída. Colocar no mundo mais do que dele tirei. Foi uma vida inteira esperando algo chegar. E mesmo quando algo chegava… Foi uma vida inteira esperando algo permanecer.

Roteiro de um sonho.

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Antes de você nunca dei importância a datas comemorativas. Os dias seguiam sua ordem imutável e nada merecia ser comemorado, antes de você. Esta data, este lugar e estas pessoas só são possíveis porque em um dia qualquer eu estava com frio e você me emprestou o seu calor.

Observo-te de longe. Não deveria estar aqui, eu sei. Você não me queria aqui, eu sei. Mas como ficaria longe se foi você quem me ensinou que amar é aprender sobre a distância perfeita entre o abismo e meu último passo?

Esta noite não faz sentido. Eu estar aqui apesar dos seus olhos fugirem dos meus não faz sentido. Mas em algum momento assistir a sua vida tornou-se a minha principal função. Se você ri, se você comemora, se você está. Eu também estou. E não há nada na vida além disso.

*

Estes cabelos poderiam ser os seus. Este pescoço poderia ser o seu. Este cheiro poderia ser o seu. E como poderia ser, é. Não! Eu não posso te deixar partir. Isso não existe. O seu lugar é aqui. Não existe mais nada do passado, só esse deserto árido e sem vida. O que um dia fui está perdido para sempre. Deixar-te ir é padecer. Agora? Neste ponto? Nesta rua? A chegada só existe se há destino. Não. Não agora. Não aqui. Você não pertence a minha falta de propósito. De tudo que fujo você é o único no qual permaneço. Este ônibus, neste lugar, neste dia. Não me olhe. Não aqui. Não agora. Vá. Vá. E mesmo que for, fique.

*

A casa. O cheiro de uma infância amarga. Infância que não me pertence. Avós, tios, mães, pais, crianças, cachorros, gritos e a totalidade que me escapa. A totalidade sempre me escapa. Eu deveria estar aqui. Eu precisava estar aqui. Toda a minha vida foi a estrada para esse lugar. Que não me pertence. Que eu desconheço. Eu poderia acordar se quisesse, mas.

Sua presença me arrebata. Eu te sinto ao meu lado como nunca senti antes. É possível enxergar o momento em que o ar toca a sua pele. É possível enxergar o contorno das suas formas. Mas você não começa. Fica esta espera, esta certeza, este vazio. Este silêncio antes de                .

*

Mãos que não as suas se apoderam das minhas. Nos olhos desta mulher estranha está o segredo da minha existência. Se eu ao menos pudesse mergulhar neles, mas não sei nadar. O chão, meus pés, as pedras que chuto pelo hábito infantil. Os processos comuns do dia a dia adquirem significados. Talvez seja isto, então, que tenha ficado da sua vida em mim: esta emersão de significados onde antes só havia aquele deserto árido.

Porque esta mulher estranha me mostra os aspectos arquitetônicos desta cidade triste? Linhas verticais e sóbrias neste prédio antigo. Adornos barrocos nas escadas do teatro municipal. A grandeza desta igreja construída para nos esmagar. -Se você olhar demais para estas formas elas perderão o significado inicial e tomarão outros. O concreto se tornará extensão do seu corpo e você matéria dessa cidade.

*

A sua morte instaurou o infinito em mim.  Foi apenas o fim da carne. A triste história do fim da matéria. A carne que padece, apodrece e se desfaz. Você era feito de outra coisa, de algo mais. O abismo que eu enxergava cada vez que olhava nos seus olhos era a sua pretensão de ser eterno. E isto me escapou. Perdemo-nos um no outro como crianças que se entregam a uma brincadeira com a certeza de que depois dela nenhuma outra existirá. Abraçar o infinito é olhar nos olhos da eternidade.

-O que é isso de infinito? Porque tanta repetição? Infinito, infinito, infinito. 

Infinito é o mar. Imensidão azul. As ondas batem nas rochas e o barulho lembra-me o canto das baleias. –Você nunca ouviu o canto das baleias. Você tem medo de baleiasO que você escuta é o medo das rochas de serem engolidas pelo mar. Dou mais um passo. E outro. O abismo, eu e o que o seu amor me ensinou. Quase. Quase. Porque não lanço-me em direção as rochas? Porque não entrego-me a fúria das ondas? Venham, devorem-me. E que reste apenas o silêncio. Que esse silêncio me tome o corpo, me force o sexo, me deforme até o ponto em que apenas você me reconheça. Eu só existi porque você me enxergou. Quando os seus olhos fecharam-se para sempre naquela caixa apertada e a terra! o padre! as rosas! Quando seus olhos fecharam-se levaram com eles a importância de ser vista. Eu estou para você como as rochas estão para o mar.

 

 

[Tentativa de roteirizar o sonho de outra pessoa].

Catalogando tempos.

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O tempo passou, meu bem. Assim como profetizaram os embaixadores do óbvio, o tempo passou. Não poderia ter sido de outra maneira. O mundo desconhece a tragédia de cada história de amor. Existe o tempo do mundo. O tempo dos relógios. O tempo de todos nós. Esse tempo passou. Nem sequer um segundo perturbou-se na sua ordem de sempre seguir em frente. Nada demorou mais. Nada demorou menos. A felicidade, o desespero e o nada tem a mesma medida. Mas existe outro tempo. Existe um tempo que criamos juntos – e cuja existência você desconhece. Esse é o nosso tempo. E somos nós a energia que o mantém em movimento. Esse tempo não passou. Se para o mundo trinta dias vieram e se foram para mim você ainda está ao meu lado nessa sala fria. Você ainda está aqui. E tudo o que se passou desde então nada foi que não uma projeção de possibilidades. Estamos parados nesse lugar cuja existência está condicionada a nossa. A nós. E nós não existimos mais. Há algo doentio no meu relacionamento com a morte. Tudo está impregnado disso. Quando eu morri para você.  No agora que estou tentando te matar. A morte é o esquecimento. Esquecer é matar. Eu te dou a vida todos os dias. E o que você faz com ela? Você continua? Estamos separados por forças maiores do que a dimensão do nosso amor. Estou perdida nessa zona morta que é regida pelas leis do tempo que criamos juntos. Você voltou para o meio comum e eu continuo aqui. A solidão é atroz. A única saída possível é te matar também. Apenas o esquecimento me libertará. Mas tenho medo. Tenho medo de te aniquilar porque fazer isso será uma espécie de suicídio. Eu me uni a você. Eu entreguei a você pedaços meus que nunca mais terei de volta. Pedaços que você despreza, pedaços que você já deixou para trás. Pedaços. E eu fiquei mais pobre. Essa pobreza tornou-se a matéria do nosso amor. Eu te entregava cada vez mais de mim e empobrecia. Você não enxergava os pedaços com os quais era presenteado e permanecia pobre. A história contada pelo nosso amor foi essa: a do empobrecimento. A dúvida da leveza não se aplica a minha situação: estou leve e essa falta de peso é o meu declínio.
Ao longo dos anos que passei ao seu lado te amei mais do que a mim mesma. (Você está certo quanto a isso, mas completamente errado quanto ao porquê). Não havia opção, entende? Você sempre recusou a matéria da qual eu sou feita e se eu tomasse como fator determinante o amor que sinto por mim nós jamais haveríamos existido. Eu precisei te amar demais para que finalmente tivéssemos algo em comum. O meu amor por ti era a ponte que nos ligava. E apenas isso. Nada mais do que isso. Era essa ponte sobre o vazio que sustentava o peso da minha total entrega. Então: a ferrugem. Então: o lodo. Então: a queda. A rapidez assustadora da destruição. O tudo. O tudo. E o nada. De repente o nada. É esse vazio sem ponte. É essa intransponibilidade.
É o vazio que tomou conta dos seus olhos. Aquela foto! A-que-la foto! Você era tão lindo. Você era tão doce. Até agora. Até agora. A frieza dos seus olhos e a rigidez das suas feições destruíram tudo o que significamos um para o outro. Ou talvez, e isso me assusta mais do que quaisquer ritos fúnebres, esse significado nunca tenha existido. Ninguém ama ninguém, é essa a lição a ser aprendida? Eu amei as partículas minhas que coloquei em você. Eu te inventei a partir do quadro em branco que você sempre foi – e nunca, nem por um segundo, deixou de ser. A grandeza da sua bondade. A doçura dos seus olhos. Tudo o que eu enxergava em você, tudo o que eu amava em você era apenas a projeção do que eu sempre procurei. Nada foi real. Apenas existiram os meus sonhos tomando forma no seu corpo quente. Só o que existiu foram os nossos corpos que se encaixaram um ao outro como nunca antes. E nesse encaixe eu encontrei uma centelha da eternidade. Consegue enxergar agora? A única parte compartilhada do nosso amor foi o desejo. O único momento em que estávamos de fato juntos era quando nossos corpos se confundiam e o nosso gozo nos tornava um. Eu só era sua quando você estava dentro de mim.
O resto do tempo eu te imaginava. Imaginei-te tanto que em algum momento você se tornou real e perceber essa verdade triste é te matar, finalmente.
Se eu não mais te enxergo, te invento, te crio
você não mais existe.