Catalogando tempos.


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O tempo passou, meu bem. Assim como profetizaram os embaixadores do óbvio, o tempo passou. Não poderia ter sido de outra maneira. O mundo desconhece a tragédia de cada história de amor. Existe o tempo do mundo. O tempo dos relógios. O tempo de todos nós. Esse tempo passou. Nem sequer um segundo perturbou-se na sua ordem de sempre seguir em frente. Nada demorou mais. Nada demorou menos. A felicidade, o desespero e o nada tem a mesma medida. Mas existe outro tempo. Existe um tempo que criamos juntos – e cuja existência você desconhece. Esse é o nosso tempo. E somos nós a energia que o mantém em movimento. Esse tempo não passou. Se para o mundo trinta dias vieram e se foram para mim você ainda está ao meu lado nessa sala fria. Você ainda está aqui. E tudo o que se passou desde então nada foi que não uma projeção de possibilidades. Estamos parados nesse lugar cuja existência está condicionada a nossa. A nós. E nós não existimos mais. Há algo doentio no meu relacionamento com a morte. Tudo está impregnado disso. Quando eu morri para você.  No agora que estou tentando te matar. A morte é o esquecimento. Esquecer é matar. Eu te dou a vida todos os dias. E o que você faz com ela? Você continua? Estamos separados por forças maiores do que a dimensão do nosso amor. Estou perdida nessa zona morta que é regida pelas leis do tempo que criamos juntos. Você voltou para o meio comum e eu continuo aqui. A solidão é atroz. A única saída possível é te matar também. Apenas o esquecimento me libertará. Mas tenho medo. Tenho medo de te aniquilar porque fazer isso será uma espécie de suicídio. Eu me uni a você. Eu entreguei a você pedaços meus que nunca mais terei de volta. Pedaços que você despreza, pedaços que você já deixou para trás. Pedaços. E eu fiquei mais pobre. Essa pobreza tornou-se a matéria do nosso amor. Eu te entregava cada vez mais de mim e empobrecia. Você não enxergava os pedaços com os quais era presenteado e permanecia pobre. A história contada pelo nosso amor foi essa: a do empobrecimento. A dúvida da leveza não se aplica a minha situação: estou leve e essa falta de peso é o meu declínio.
Ao longo dos anos que passei ao seu lado te amei mais do que a mim mesma. (Você está certo quanto a isso, mas completamente errado quanto ao porquê). Não havia opção, entende? Você sempre recusou a matéria da qual eu sou feita e se eu tomasse como fator determinante o amor que sinto por mim nós jamais haveríamos existido. Eu precisei te amar demais para que finalmente tivéssemos algo em comum. O meu amor por ti era a ponte que nos ligava. E apenas isso. Nada mais do que isso. Era essa ponte sobre o vazio que sustentava o peso da minha total entrega. Então: a ferrugem. Então: o lodo. Então: a queda. A rapidez assustadora da destruição. O tudo. O tudo. E o nada. De repente o nada. É esse vazio sem ponte. É essa intransponibilidade.
É o vazio que tomou conta dos seus olhos. Aquela foto! A-que-la foto! Você era tão lindo. Você era tão doce. Até agora. Até agora. A frieza dos seus olhos e a rigidez das suas feições destruíram tudo o que significamos um para o outro. Ou talvez, e isso me assusta mais do que quaisquer ritos fúnebres, esse significado nunca tenha existido. Ninguém ama ninguém, é essa a lição a ser aprendida? Eu amei as partículas minhas que coloquei em você. Eu te inventei a partir do quadro em branco que você sempre foi – e nunca, nem por um segundo, deixou de ser. A grandeza da sua bondade. A doçura dos seus olhos. Tudo o que eu enxergava em você, tudo o que eu amava em você era apenas a projeção do que eu sempre procurei. Nada foi real. Apenas existiram os meus sonhos tomando forma no seu corpo quente. Só o que existiu foram os nossos corpos que se encaixaram um ao outro como nunca antes. E nesse encaixe eu encontrei uma centelha da eternidade. Consegue enxergar agora? A única parte compartilhada do nosso amor foi o desejo. O único momento em que estávamos de fato juntos era quando nossos corpos se confundiam e o nosso gozo nos tornava um. Eu só era sua quando você estava dentro de mim.
O resto do tempo eu te imaginava. Imaginei-te tanto que em algum momento você se tornou real e perceber essa verdade triste é te matar, finalmente.
Se eu não mais te enxergo, te invento, te crio
você não mais existe.

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