Roteiro de um sonho.


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Antes de você nunca dei importância a datas comemorativas. Os dias seguiam sua ordem imutável e nada merecia ser comemorado, antes de você. Esta data, este lugar e estas pessoas só são possíveis porque em um dia qualquer eu estava com frio e você me emprestou o seu calor.

Observo-te de longe. Não deveria estar aqui, eu sei. Você não me queria aqui, eu sei. Mas como ficaria longe se foi você quem me ensinou que amar é aprender sobre a distância perfeita entre o abismo e meu último passo?

Esta noite não faz sentido. Eu estar aqui apesar dos seus olhos fugirem dos meus não faz sentido. Mas em algum momento assistir a sua vida tornou-se a minha principal função. Se você ri, se você comemora, se você está. Eu também estou. E não há nada na vida além disso.

*

Estes cabelos poderiam ser os seus. Este pescoço poderia ser o seu. Este cheiro poderia ser o seu. E como poderia ser, é. Não! Eu não posso te deixar partir. Isso não existe. O seu lugar é aqui. Não existe mais nada do passado, só esse deserto árido e sem vida. O que um dia fui está perdido para sempre. Deixar-te ir é padecer. Agora? Neste ponto? Nesta rua? A chegada só existe se há destino. Não. Não agora. Não aqui. Você não pertence a minha falta de propósito. De tudo que fujo você é o único no qual permaneço. Este ônibus, neste lugar, neste dia. Não me olhe. Não aqui. Não agora. Vá. Vá. E mesmo que for, fique.

*

A casa. O cheiro de uma infância amarga. Infância que não me pertence. Avós, tios, mães, pais, crianças, cachorros, gritos e a totalidade que me escapa. A totalidade sempre me escapa. Eu deveria estar aqui. Eu precisava estar aqui. Toda a minha vida foi a estrada para esse lugar. Que não me pertence. Que eu desconheço. Eu poderia acordar se quisesse, mas.

Sua presença me arrebata. Eu te sinto ao meu lado como nunca senti antes. É possível enxergar o momento em que o ar toca a sua pele. É possível enxergar o contorno das suas formas. Mas você não começa. Fica esta espera, esta certeza, este vazio. Este silêncio antes de                .

*

Mãos que não as suas se apoderam das minhas. Nos olhos desta mulher estranha está o segredo da minha existência. Se eu ao menos pudesse mergulhar neles, mas não sei nadar. O chão, meus pés, as pedras que chuto pelo hábito infantil. Os processos comuns do dia a dia adquirem significados. Talvez seja isto, então, que tenha ficado da sua vida em mim: esta emersão de significados onde antes só havia aquele deserto árido.

Porque esta mulher estranha me mostra os aspectos arquitetônicos desta cidade triste? Linhas verticais e sóbrias neste prédio antigo. Adornos barrocos nas escadas do teatro municipal. A grandeza desta igreja construída para nos esmagar. -Se você olhar demais para estas formas elas perderão o significado inicial e tomarão outros. O concreto se tornará extensão do seu corpo e você matéria dessa cidade.

*

A sua morte instaurou o infinito em mim.  Foi apenas o fim da carne. A triste história do fim da matéria. A carne que padece, apodrece e se desfaz. Você era feito de outra coisa, de algo mais. O abismo que eu enxergava cada vez que olhava nos seus olhos era a sua pretensão de ser eterno. E isto me escapou. Perdemo-nos um no outro como crianças que se entregam a uma brincadeira com a certeza de que depois dela nenhuma outra existirá. Abraçar o infinito é olhar nos olhos da eternidade.

-O que é isso de infinito? Porque tanta repetição? Infinito, infinito, infinito. 

Infinito é o mar. Imensidão azul. As ondas batem nas rochas e o barulho lembra-me o canto das baleias. –Você nunca ouviu o canto das baleias. Você tem medo de baleiasO que você escuta é o medo das rochas de serem engolidas pelo mar. Dou mais um passo. E outro. O abismo, eu e o que o seu amor me ensinou. Quase. Quase. Porque não lanço-me em direção as rochas? Porque não entrego-me a fúria das ondas? Venham, devorem-me. E que reste apenas o silêncio. Que esse silêncio me tome o corpo, me force o sexo, me deforme até o ponto em que apenas você me reconheça. Eu só existi porque você me enxergou. Quando os seus olhos fecharam-se para sempre naquela caixa apertada e a terra! o padre! as rosas! Quando seus olhos fecharam-se levaram com eles a importância de ser vista. Eu estou para você como as rochas estão para o mar.

 

 

[Tentativa de roteirizar o sonho de outra pessoa].

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