O homem.

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O homem dirige pela cidade chuvosa. O homem sai de casa para ir até o trabalho e, oito horas depois, sai do trabalho para voltar para casa. O homem dirige, mora e trabalha. E a chuva cai torrencialmente há quatro dias.

Na mesma cidade cinza, eu sonho. O meu trabalho é este: sonhar apesar da chuva. (Trabalho que nunca ficou claro para o homem que segue em frente apenas para exercer seu direito de caminhar).

Os livros empoeirados descansam tristes sobre o criado-mudo. O pó dos dias fez nascer um novo motivo para as páginas amarelas: eles não existem para serem lidos, homem, eles só existem se forem lidos.

Tudo foi uma discrepância de significados. Tudo foi uma discrepância de significados e nada além disto. A vida do homem sempre fluiu com uma facilidade assustadora. Nunca houve pausas, suspiros ou perguntas. Os dias do calendário em nada se diferenciavam dos dias do homem. O homem nunca parou. O homem nunca soube que era possível, ou preciso?, parar. O homem seguia em frente e as minhas perguntas ecoavam como um sussurro assombroso em noites cada vez mais geladas.

Sonhar é procurar significados. Procuro-os e a cada porta aberta tudo o que encontro é um mesmo espelho.  Procuro significados e encontrá-los é colocar no homem o que só é possível em mim. Não existem motivos. Nunca existiram motivos. O homem sempre foi um sistema axiomático de arbitrariedades e atribuir significados íntimos a ele foi um fim em si mesmo. Ele é porque ele é e não existe nada a ser esmiuçado. Não se pode mergulhar em águas rasas.

O homem dirige pela cidade chuvosa enquanto eu encontro na chuva lembranças de dois anos atrás. A mesma cidade se divide em duas: a dos que sonham e a dos que.

O homem dirige, mora e trabalha.

O homem que não sabe escrever escreve a história dos que não podem significar.

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Axioma.

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A vida está me engolindo. Quem te olha agora não sou eu, quem te olha agora é o fruto desse processo de desaparecimento. Sim, eu sei: estamos todos morrendo. Mas não é isso. Não. Não é mais isso.

Talvez sejam essas flores na janela, talvez seja o sol pálido das manhãs: hoje enxergo a vida que existe nesse trabalho de morte. Respirar se tornou mais fácil sem toda aquela tempestade.

A vida me devora e essa leveza me ensina a sorrir.

Incorpóreo é o desejo.

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Você me invadiu ontem à noite. Como se minha vontade de te ter por perto tivesse criado mãos e por elas eu tivesse sido destruída. Não há nada mais solitário do que dormir sozinha. Não há nada mais devastador do que não conseguir acordar.

Você me assusta. O que me tornei me assusta. Você me transformou em carne, eu que sempre fui vento. Escrevo-te e penso-te e crio-te e de repente não existe mais nada ao meu redor que não o desejo. Esse quarto, esses lençóis e essa cidade não existem mais. Cartas de amor tornaram-se impossíveis agora. O amor já não existia, mas isso nunca me impediu. O que mudou agora? Você me criou à sua imagem? Você me criou? Você.

As respostas me escapam e a imparidade das perguntas me fascina. A incerteza é a carne do meu desejo e o não saber será o meu gozo abissal.

Para mudar de assunto.

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E no dia mais triste do mundo eu encontrei você. As cortinas haviam se tornado objetos de esconder. O céu, o sol e a vida pareciam gozar de possibilidades que para mim não existiam mais. No dia onde meu destino parecia fadado e a ajuda parecia impossível: foi nesse dia que encontrei você. E eu que só sei escrever cartas de amor passei a enxergar outras possibilidades para as cortinas.