Ártico.

Image

O relógio na parede marca as horas. O relógio na parede marca as horas e as sepulta. O relógio na parede marca as horas, as sepulta e as entrega ao completo esquecimento.

Nada está protegido da temporalidade inerente a qualquer experiência humana. São apenas ilhas provisórias de permanência. A única existência é aquela que vejo, que experiencio, que me devora. O arquipélago é impossível. Entre cada ilha, a eternidade. O descobrimento de algo novo condiciona-se a destruição do anterior. É preciso destruir as pontes. Elugelab se repetindo durante toda uma vida. É aquela bomba jogada sobre os álbuns de fotografia. Os destroços, a tristeza e o nada. O vazio do qual é preciso fugir e pelo qual somos possíveis. Não existiria a totalidade de uma existência se cada ilha abandonada continuasse presente. Seria impossível não sucumbir ao peso do que já foi vivido e agora nunca mais. Seria impossível não perecer diante esse mapa de eternidades abandonadas.

Em algum momento eu vivi naquela ilha. Em algum momento aquela ilha foi a única terra firme em uma imensidão erma. Em algum momento a hermeticidade daquele lugar me acolheu e me consolou. E em algum momento o mar a engoliu. O caminho entre a destruição e essa nova provisoriedade foi o respirar entre suspiros. O objetivo continua o mesmo: será no dia em que o mar se limitará ao seu caráter de paisagem, será no dia em que uma única ilha se tornará suficiente.

Anúncios

Blütenschimmer.

Image

O encontro antecedeu a palavra. Falhei no trabalho de toda uma vida: o meu arfar em silêncio não seria possível em nenhum outro lugar. Era sexta-feira, talvez fosse sábado, e a cada toque agudo daquela campainha infernal minha boca me traia em verdades nimbosas. A única entrega possível sempre foi esta: sabê-la é trair a sua natureza.

A vida saia pelas frestas da janela e nem as mãos mais hábeis conseguiriam impedi-la. Aquela saída, aquele derramamento, aquele abandono. A vida saia pelas frestas da janela e essa saída me enriquecia. Quando aquela cidade se tornou extensão do meu corpo e o meu respirar tornou-se concreto o meu assombro desapareceu como se nunca tivesse sido nada além de poeira. Eram as flores que saiam daquele mausoléu abandonado: o encontro da sua pele com a minha me fez florescer.

O tempo se derrama agora. O tempo se derrama sobre o meu corpo em ondas quentes e vagarosas. E eu me derramo sobre o tempo. Do infinito que ressoou em cada palavra sobraram os meus suspiros fora de hora e o seu cheiro que só é possível se colado a minha pele.

El Ateneo.

Image

As escadas me alcançam agora. Os seus olhos me trouxeram até aqui — eu precisava encontrá-los. A imagem que se aproxima de você um degrau por vez não existe em qualquer outro mundo que não este delimitado pelas paredes de um teatro antigo. Não existe a carne. É só o vento, a névoa e a tempestade. [Quando se existe pelos olhos dos outros morrer e (re) nascer é apenas respirar.]

Este instante destruiu todas as outras realidades já vividas. Nada nasce, meu bem, o encontro é o rompimento com todo o passado: encontrar é perder.

Foram os seus olhos, sempre os seus olhos, que me tornaram possível. [Hoje quando só existe o agora.]

O ponto de contato entre você e eu é este abismo que me convida a cada novo degrau. Se eu te encontrar, estarei perdida: chegar ao fim desta escada é avançar pelo precipício.