Fragmento.

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Talvez eu precise escrever sobre você,
quando você bateu na minha porta vestindo uma blusa manchada que me fez passar horas imaginando como podiam as marcas da chuva demorarem tanto para secar. Você estava seco, mas isto só percebi quando meu seios se comprimiam contra seu corpo magro. Você me odiou por meus cigarros e ficou há exatos quatro palmos de mim no sofá. À minha direita o tempo todo – como explicar que ter alguém à minha direita me deixa terrivelmente incomodada? -, assistíamos um programa sobre um menino portador de uma doença rara que se manifesta com a formação de um tumor enorme que toma conta de suas costas. Éramos você, eu e o menino tartaruga no primeiro dia do ano. Você não suporta ver sangue, esta foi a primeira coisa que aprendi a seu respeito. De todas as coisas que existem para serem conhecidas o primeiro fragmento da sua totalidade que consegui capturar foi este ao te observar desviando o olhar enquanto os cirurgiões de um hospital na Venezuela cuidadosamente extirpavam o tumor do menino.
A história do menino que deixou de ser tartaruga, do homem seco que não suporta ver sangue e da mulher que mentalmente conta distâncias no sofá.