O fim do ano, as cartas e a amiga.

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T.,

 
foi uma vida inteira escrevendo cartas. Quando era pequena eu ficava horas na biblioteca do meu pai tentando extrair algum sentido de livros russos, alemães, franceses. Eu já sabia ler e podia escolher algum dos tantos livros em português, mas não podia. O significado familiar nunca teve o mesmo apelo que o mistério. O sentido daquelas palavras não me pertencia e por isso capturá-lo se tornou a coisa mais importante na minha vida de criança. Neste momento apareceu o Outro. Meu pai se sentava ao meu lado e me presenteava com a compreensão que eu tanto buscava. O Outro tornou-se o mensageiro do sentido. Sendo guiada por Ele eu poderia alcançar o inalcançável.  
O tempo passou. A biblioteca do meu pai foi transformada em uma sala de TV pelas pessoas que compraram a casa na qual eu cresci. A biblioteca não existe mais e o Outro tomou novas formas.
Viver é, hoje, mais difícil do que ler livros em russo foi um dia. Viver é saber do mistério e tentar a todo custo desvendá-lo. A ajuda é obrigatória. Só com ajuda posso seguir tentando dar forma ao que antes era só silêncio. O mundo é estrangeiro demais. As pessoas passam por mim. As pessoas param ao meu lado. As pessoas vão embora. É aquela total intimidade seguida pelo completo desconhecimento. É o Outro que nunca chega ao fim do livro. É a história sem fim.
Neste ano eu senti como se estivesse me afogando. Eu alcancei o ponto mais profundo e de repente percebi que não sei nadar. Eu precisei de ajuda, mas a água que entrava com violência na minha boca me impediu de gritar. O meu não-grito não foi destinado a você. Não era para você que eu estava pedindo ajuda, mas foi você quem me ajudou.
Eu não queria que este ano tivesse acontecido. Eu por muitas vezes me senti mal por não poder te ajudar mais. Nunca quis te devolver nada. Não fiquei por perto porque era o certo a se fazer. Fiquei por perto porque era a única coisa a ser feita.
Eu não queria que este ano tivesse acontecido, mas foi este ano que me trouxe a ajuda que sei que precisarei em muitos anos por vir. Anos que eu desejarei, de novo, que não tivessem existido. E anos em que a felicidade se tornará tão pesada quanto o desespero.
Foi uma vida inteira escrevendo cartas de amor. Mas foi, antes de tudo, uma vida inteira escrevendo cartas a amores cujo fim, e somente o fim, justifica a força do seu começo. É muito fácil se apaixonar .É muito fácil escrever sobre esta paixão. Amar é o trabalho de uma vida inteira. Eu te amo porque amar é voltar para a biblioteca e pedir ajuda para entender o que não (me) faz sentido.
Estou aqui e estar aqui me faz compreender que a vida é aquela folha que cai na floresta e que se ninguém estiver lá para ouvir não fará nenhum som enquanto tomba. Minha vida, que é o barulho e não a folha, só existe porque existe alguém para ouví-la.
 
Amor,
 
N.
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A floresta e o silêncio.

 

aokigara

 

Ele me olhou nos olhos e eu estava perdida.

-Você pode me amar. Você pode não me amar. São coisas que acontecem.

-Nada acontece. Nada nunca aconteceu. Está tudo dentro da sua cabeça.

– Existe algo mais real do que aquilo que está dentro da minha cabeça?

– Não posso te alcançar, nunca poderei.

– Inventarei o toque. Você me alcançará.

– Parece bom o suficiente.

– Não é.

Porque dizer tanto sobre o silêncio, Ele perguntou. Não, não, não. Foi tudo entendido errado. Não me fiz entender e tampouco posso agora me explicar. Ele levará consigo o avesso de mim. É melhor. Qualquer construção é melhor do que construção alguma. 

Ao lado da minha casa um prédio será construído. Lembra-se do terreno? Não existe nada além do terreno de sete milhões. Não existe nada e pessoas batem a minha porta perguntando sobre o sol da tarde em um apartamento com face norte. Um apartamento que não existe em um prédio que não está lá. Você compraria algo que não existe? Se fosse um bom investimento. Você investiria em algo sem poder tocar suas paredes? Sua infantilidade me diverte. Não existe nada de infantil em querer tocar paredes.

Não escrevo sobre o silêncio. A palavra está presente em tudo. Não venço um parágrafo sem usá-lo como referência, ou exemplo, ou matéria. Mas não é o silêncio, nunca foi. É o amor. Amar é o único silêncio possível. É o único silêncio pacífico. Não se pode escrever quando se ama. Não se pode falar quando se ama. Não se pode viver. Estaríamos além da comunicação. Seria uma tarde de verão nos primeiros dias do ano. Você me pegaria pela mão e me guiaria até o quarto. Deitaríamos na cama e você, em silêncio, me olharia nos olhos. Neste momento estaríamos perdidos.

Mas tudo não passa de um jogo de possibilidades. São coisas que acontecem. São coisas que não acontecem. Você não consegue passar cinco minutos em silêncio. Você me interrompe em todas as nossas conversas, sua verborragia é patológica. Escreve sobre o silêncio e impede sua existência violentamente. Por que não falar de amor de uma vez? Seria mais simples. É por isso que tenho medo do mar. Fale mais alto, medo do quê? Nada. É por isso que eu tenho medo.

– Eu vou embora.

– Vá.

– Não consigo.

– É só andar para longe. Um pé, depois o outro.

– Nunca mais nos veremos. É preciso que permaneçamos para sempre longe.

– Estar longe não é físico.

– Estar perto também não.

*

A floresta Aokigahara, no Japão, é conhecida pelo elevado número de suicídios que lá acontecem. É considerada o lugar mais comum para suicídios no Japão e o segundo do mundo, perdendo apenas para a ponte Golden Gate, em São Francisco. A popularidade da floresta como lugar de suicídios surgiu em 1960 quando foi lançado o livro Mar de Árvores, de Seichō Matsumoto, onde em um final trágico dois amantes tiram suas vidas na floresta. 178 corpos foram encontrados na floresta entre 2002 e 2003. Desde então o governo japonês criou medidas de prevenção que incluem a colocação de mensagens de alerta com números de telefone de centrais de ajuda aos suicidas nas entradas da floresta. Um fenômeno comum para os guardas que patrulham a área é achar barbantes enrolados às árvores, criando uma espécie de rota. A floresta abrange uma área de 35km² e se perder nela é muito fácil. Os guardas explicam que algumas pessoas ainda tem dúvidas quanto a se devem ou não colocar fim as suas vidas e usam esse barbante como um meio de achar o caminho de volta caso escolham viver.

Manual da guerra em uma sexta-feira chuvosa.

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1. Nunca olhe ninguém nos olhos. Em campos de batalha este contato extremo será sempre considerado uma rendição.

2. Ao olhar para baixo nunca permita que seus ombros sigam o movimentos de seus olhos. A linguagem corporal de um vencedor não poderá sob hipótese alguma transparecer qualquer estado que não o de ataque.

3. Não sonhe. Homens práticos e vitoriosos nunca olharão para as estrelas.

4. Classifique todas as suas experiências como experiência alguma e as esqueça.

5. Nunca toque ninguém. Tocar é permitir que o outro faça parte de você e que você exista também no outro. Nenhuma guerra jamais foi vencida com cessão de territórios.

6. Não chore. Nunca, em nenhuma situação, chore.

7. Acabe com todos os seus laços de afeto. Relações interpessoais são sinais de fraqueza e devem ser rechaçadas.

8. Seja indiferente ao choro de uma criança.

9. Durma sempre sozinho.

10. Não permita que nenhum texto chegue ao fim.

11.

Ártico.

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O relógio na parede marca as horas. O relógio na parede marca as horas e as sepulta. O relógio na parede marca as horas, as sepulta e as entrega ao completo esquecimento.

Nada está protegido da temporalidade inerente a qualquer experiência humana. São apenas ilhas provisórias de permanência. A única existência é aquela que vejo, que experiencio, que me devora. O arquipélago é impossível. Entre cada ilha, a eternidade. O descobrimento de algo novo condiciona-se a destruição do anterior. É preciso destruir as pontes. Elugelab se repetindo durante toda uma vida. É aquela bomba jogada sobre os álbuns de fotografia. Os destroços, a tristeza e o nada. O vazio do qual é preciso fugir e pelo qual somos possíveis. Não existiria a totalidade de uma existência se cada ilha abandonada continuasse presente. Seria impossível não sucumbir ao peso do que já foi vivido e agora nunca mais. Seria impossível não perecer diante esse mapa de eternidades abandonadas.

Em algum momento eu vivi naquela ilha. Em algum momento aquela ilha foi a única terra firme em uma imensidão erma. Em algum momento a hermeticidade daquele lugar me acolheu e me consolou. E em algum momento o mar a engoliu. O caminho entre a destruição e essa nova provisoriedade foi o respirar entre suspiros. O objetivo continua o mesmo: será no dia em que o mar se limitará ao seu caráter de paisagem, será no dia em que uma única ilha se tornará suficiente.

Blütenschimmer.

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O encontro antecedeu a palavra. Falhei no trabalho de toda uma vida: o meu arfar em silêncio não seria possível em nenhum outro lugar. Era sexta-feira, talvez fosse sábado, e a cada toque agudo daquela campainha infernal minha boca me traia em verdades nimbosas. A única entrega possível sempre foi esta: sabê-la é trair a sua natureza.

A vida saia pelas frestas da janela e nem as mãos mais hábeis conseguiriam impedi-la. Aquela saída, aquele derramamento, aquele abandono. A vida saia pelas frestas da janela e essa saída me enriquecia. Quando aquela cidade se tornou extensão do meu corpo e o meu respirar tornou-se concreto o meu assombro desapareceu como se nunca tivesse sido nada além de poeira. Eram as flores que saiam daquele mausoléu abandonado: o encontro da sua pele com a minha me fez florescer.

O tempo se derrama agora. O tempo se derrama sobre o meu corpo em ondas quentes e vagarosas. E eu me derramo sobre o tempo. Do infinito que ressoou em cada palavra sobraram os meus suspiros fora de hora e o seu cheiro que só é possível se colado a minha pele.

El Ateneo.

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As escadas me alcançam agora. Os seus olhos me trouxeram até aqui — eu precisava encontrá-los. A imagem que se aproxima de você um degrau por vez não existe em qualquer outro mundo que não este delimitado pelas paredes de um teatro antigo. Não existe a carne. É só o vento, a névoa e a tempestade. [Quando se existe pelos olhos dos outros morrer e (re) nascer é apenas respirar.]

Este instante destruiu todas as outras realidades já vividas. Nada nasce, meu bem, o encontro é o rompimento com todo o passado: encontrar é perder.

Foram os seus olhos, sempre os seus olhos, que me tornaram possível. [Hoje quando só existe o agora.]

O ponto de contato entre você e eu é este abismo que me convida a cada novo degrau. Se eu te encontrar, estarei perdida: chegar ao fim desta escada é avançar pelo precipício.

O homem.

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O homem dirige pela cidade chuvosa. O homem sai de casa para ir até o trabalho e, oito horas depois, sai do trabalho para voltar para casa. O homem dirige, mora e trabalha. E a chuva cai torrencialmente há quatro dias.

Na mesma cidade cinza, eu sonho. O meu trabalho é este: sonhar apesar da chuva. (Trabalho que nunca ficou claro para o homem que segue em frente apenas para exercer seu direito de caminhar).

Os livros empoeirados descansam tristes sobre o criado-mudo. O pó dos dias fez nascer um novo motivo para as páginas amarelas: eles não existem para serem lidos, homem, eles só existem se forem lidos.

Tudo foi uma discrepância de significados. Tudo foi uma discrepância de significados e nada além disto. A vida do homem sempre fluiu com uma facilidade assustadora. Nunca houve pausas, suspiros ou perguntas. Os dias do calendário em nada se diferenciavam dos dias do homem. O homem nunca parou. O homem nunca soube que era possível, ou preciso?, parar. O homem seguia em frente e as minhas perguntas ecoavam como um sussurro assombroso em noites cada vez mais geladas.

Sonhar é procurar significados. Procuro-os e a cada porta aberta tudo o que encontro é um mesmo espelho.  Procuro significados e encontrá-los é colocar no homem o que só é possível em mim. Não existem motivos. Nunca existiram motivos. O homem sempre foi um sistema axiomático de arbitrariedades e atribuir significados íntimos a ele foi um fim em si mesmo. Ele é porque ele é e não existe nada a ser esmiuçado. Não se pode mergulhar em águas rasas.

O homem dirige pela cidade chuvosa enquanto eu encontro na chuva lembranças de dois anos atrás. A mesma cidade se divide em duas: a dos que sonham e a dos que.

O homem dirige, mora e trabalha.

O homem que não sabe escrever escreve a história dos que não podem significar.